Right to Simplified Consent
Os termos de uso e as políticas de privacidade têm sido apresentados como ferramentas para garantir a transparência no uso de dados dos consumidores.
No entanto, na prática, estes documentos frequentemente operam como barreiras à compreensão e à tomada de decisões informadas pelos utilizadores.
Ao invés de proteger os direitos dos consumidores, muitas vezes perpetuam a assimetria de poder entre empresas e utilizadores, permitindo que os dados sejam recolhidos e processados de forma pouco clara.
Neste artigo defendo a necessidade de melhorias no RGPD, incluindo um novo direito do consumidor que designaria por Right to Simplified Consent.
A Ilusão do Consentimento Informado
A maioria dos estudos efetuados sobre o tema, assinalam que a maioria dos consumidores não lê os termos de uso e políticas de privacidade antes de aceitá-los.
Um estudo realizado pela Carnegie Mellon University revelou que levaria cerca de 244 horas por ano para que um consumidor médio nos Estados Unidos lesse todas as políticas de privacidade que encontra na sua navegação online.
Além disso, mesmo entre aqueles que leem, a linguagem jurídica complexa e os textos excessivamente longos tornam quase impossível compreender plenamente as implicações.
Seguem-se alguns problemas no consentimento informado:
Linguagem Técnica e Ambígua
Os documentos frequentemente utilizam jargões legais ou termos vagos, dificultando a interpretação até mesmo por pessoas com alto nível de educação.
Consentimento Genérico
As plataformas muitas vezes apresentam um “tudo ou nada”, onde o consumidor deve aceitar toda a política para aceder ao serviço, sem opção de escolher que dados deseja partilhar.
Práticas de Dark Patterns
Interfaces de utilizador projetadas para pressionar ou enganar os consumidores a consentirem, como botões de “aceitar” destacados em comparação com as opções de rejeição.
O Papel da IA na Exacerbação do Problema
A Inteligência Artificial amplifica o impacto negativo desta falácia.
Algoritmos de IA dependem de grandes volumes de dados para operar e as empresas utilizam políticas de privacidade ambíguas para justificar a recolha massiva destas informações.
Como resultado:
- Exploração de Dados Sensíveis: Informações pessoais são processadas para criar perfis detalhados, que podem ser usados para manipular escolhas de consumo;
- Dificuldade em Revogar Consentimento: Mesmo quando os consumidores decidem retirar o seu consentimento, a complexidade dos sistemas digitais dificulta o acesso e a execução desta ação;
- Uso em Aplicações Não Declaradas: Os dados são frequentemente usados para finalidades não especificadas nos termos originais, como venda a terceiros ou formação de IA.
A Falácia dos Termos de Uso como Instrumento de Dominação
Filósofos como Byung-Chul Han criticam a lógica da transparência excessiva como um mecanismo de controlo.
Segundo ele, o consumidor, ao aceitar termos que não entende, é forçado a conformar-se com uma lógica de vigilância e exploração, enquanto acredita ter controlo.
Este conceito alinha-se com o “paradoxo da privacidade”, identificado em estudos de comportamento do consumidor, que demonstra que as pessoas desejam proteger os seus dados, mas, na prática, cedem-nos facilmente em troca de conveniência.
Propostas para Mitigar o Problema
Clareza e Acessibilidade
Os regulamentações devem exigir que os termos de uso sejam apresentados em linguagem clara e acessível, com resumos executivos destacando os principais pontos de impacto para o consumidor.
Consentimento Granular
Os consumidores devem poder optar por que dados desejam partilhar e para quais finalidades, com opções detalhadas em um formato visualmente compreensível.
Limitação ao Uso de Dados
As empresas devem ser obrigadas a justificar a recolha de dados como estritamente necessária para a operação do serviço, proibindo práticas de recolha excessiva.
Auditorias em Algoritmos
Os sistemas de IA devem ser auditados para garantir que os dados recolhidos estejam a ser usados conforme os propósitos declarados e que não haja desvio para finalidades não autorizadas.
Right to Simplified Consent: Novo Direito dos Consumidores?
Razão da sua Necessidade
Embora o RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) tenha sido uma medida essencial para aumentar a transparência e proteger os direitos dos consumidores, ele não resolve completamente o problema do consentimento informado.
O RGPD exige que as empresas sejam claras sobre como os dados são usados, mas não elimina a complexidade dos termos de uso e políticas de privacidade, que continuam extensos, técnicos e difíceis de compreender para a maioria dos consumidores.
O “Right to Simplified Consent” complementaria o RGPD ao focar na acessibilidade e na usabilidade, garantindo que os consumidores não precisem de conhecimentos jurídicos ou tempo excessivo para compreender os documentos.
Tal criaria um ambiente de consumo mais justo, onde o consentimento seria realmente informado e voluntário, em vez de forçado ou baseado na confiança cega.
Algumas Características do Right to Simplified Consent
Foco no Consentimento Informado
Colocar em evidência que o consumidor deve poder consentir com pleno entendimento das implicações, sem ser penalizado por textos longos e complexos.
Ênfase na Simplicidade
Destacar a necessidade de termos claros, acessíveis e concisos, respeitando as limitações de tempo, habilidades ou conhecimentos jurídicos do consumidor.
Acessibilidade e Inclusão
Refletir o objetivo de tornar os direitos do consumidor mais inclusivos, eliminando barreiras criadas por linguagem técnica ou processos desnecessariamente complicados.
Descrição do Direito
O “Right to Simplified Consent” garantiria que os consumidores:
- Tenham acesso a versões claras e resumidas de termos e políticas, com destaque para os aspetos mais relevantes;
- Possam recusar termos excessivamente complexos sem serem impedidos de aceder a serviços essenciais;
- Sejam protegidos contra práticas de consentimento forçado, como a exigência de aceitar cláusulas desproporcionais para utilizar um serviço;
- Contem com mecanismos para verificar se os seus dados estão a ser usados conforme o consentimento fornecido.
Este direito fortaleceria a posição do consumidor na era digital, promovendo uma relação de maior equilíbrio e transparência com as empresas.
Conclusão
O consentimento informado, como apresentado atualmente, é amplamente ilusório e prejudica os direitos dos consumidores.
A defesa do consumidor na era digital deve reconhecer as limitações destes sistemas e estabelecer regulamentações que ofereçam transparência real e controlo efetivo sobre os dados pessoais.
Como argumentam Acquisti, Taylor e Wagman no seu estudo sobre privacidade e economia comportamental, os consumidores bem informados e com controlo das suas escolhas são fundamentais para equilibrar o poder entre empresas e indivíduos no mercado digital.

