Investigação Dupond et Dupond
A dupla de detectives Dupond et Dupont, da clássica banda desenhada Tintim, encarna uma sátira perfeita da investigação burocrática: enquanto um repete as palavras do outro, disfarçando redundância sob o véu da autoridade, ambos falham em questionar o óbvio.
A sua dinâmica, além de cómica, é um espelho crítico de certas práticas académicas e científicas que, ao priorizarem o formalismo vazio ou a reprodução de dogmas, perdem a essência da investigação: desafiar a verdade instituída.
Neste contexto, a ascensão da inteligência artificial (IA) como ferramenta de pesquisa obriga-nos a refletir: será a IA uma aliada na desconstrução de certezas ou mais uma “Dupondização” do conhecimento?
Quem Sabe Faz, Quem Não Sabe… Investiga?
A máxima “quem sabe faz, quem não sabe ensina” ganha uma releitura irónica no mundo académico: “quem sabe faz, quem não sabe investiga”.
Se interpretada literalmente, a frase reduz a investigação a um refúgio da ignorância.
Contudo, a sua inversão proposital serve para destacar que a verdadeira investigação não é um ato de resignação, mas de rebeldia.
Investigar, no sentido nobre, é duvidar do que parece consolidado, seja um paradigma científico, uma narrativa histórica ou um algoritmo de IA.
Os Dupond, ao repetirem frases como eco, representam o oposto: a investigação como ritual, não como inquirição.
IA: Entre a Calculadora e o Sacrilégio
O uso de IA na pesquisa enfrenta hoje resistência semelhante à que as calculadoras enfrentaram no século XX.
Critica-se que ferramentas como ChatGPT ou modelos de análise de dados “desumanizariam” o processo criativo.
No entanto, assim como uma calculadora não substitui o entendimento da matemática, a IA não substitui a crítica humana — amplifica-a.
Se um pesquisador usa IA para mapear padrões em milhares de artigos, identificar lacunas ou até simular hipóteses, está a agir como um cientista que domina novas tecnologias para ir além do óbvio.
O erro não está na ferramenta, mas em quem a usa como os Dupond: para reproduzir, não para questionar.
Formalismo Científico: Necessário, mas Não Suficiente
A comunicação científica vive sob a tirania do formalismo: metodologias rígidas, citações obrigatórias, jargões herméticos.
Este rigor tem o seu valor, evita os “erros Dupond” de conclusões infundadas, mas quando vira fim em si mesmo, engessa a criatividade.
Um artigo repleto de equações complexas, mas sem questionamento original, é tão vazio quanto as frases repetitivas dos detectives de Tintim.
A IA, nesse cenário, pode ser uma aliada paradoxal: ao automatizar tarefas formais (revisão bibliográfica, formatação), liberta o pesquisador para focar no que importa, a pergunta que ainda não foi feita.
IA Como Xeque à Autoridade
A academia tradicionalmente valida o conhecimento por meio de fontes “autorizadas”.
A IA, porém, democratiza o acesso à informação e expõe contradições.
Por exemplo: um modelo de linguagem pode cruzar teorias díspares em segundos, revelando conexões que um humano levaria anos para notar.
Claro, isso exige vigilância, a IA também reproduz vieses e erros presentes nos seus dados.
Mas aqui reside a lição: se usada criticamente, a IA não é um oráculo, mas um convite a investigar mais fundo.
É o antídoto contra a “Dupondice” intelectual.
Conclusão: Nem Dupond, Nem Máquina, Humano, Acima de Tudo
Defender o uso da IA na academia não é abrir mão do rigor, mas reconhecer que as ferramentas sempre moldaram o conhecimento.
A imprensa de Gutenberg, a calculadora de Pascal, o machine learning, todos desafiaram o status quo.
O sacrilégio não está em usar IA, mas em aceitar passivamente as suas respostas, como os Dupond aceitam as suas próprias redundâncias.
A investigação digna desse nome deve ser um xeque-mate à verdade instituída, e a IA, bem utilizada, é o cavalo do tabuleiro que permite ver além dos peões.
No fim, a lição de Tintim persiste: o bom investigador não tem medo de se perder, desde que esteja disposto a questionar até o que parece mais óbvio.
E nessa jornada, até os Dupond teriam algo a aprender, desde que desligassem o modo “repetição”.

