Será a Externalização o que distingue a humanidade?
Desde que o primeiro hominídeo utilizou uma pedra para quebrar um osso, ou deixou a marca da sua mão numa parede de calcário, algo mudou na história do planeta.
Não foi apenas o uso de ferramentas, afinal, corvos usam gravetos e castores constroem complexas represas.
Foi o início de uma fuga.
Uma fuga de nós mesmos para fora de nós mesmos.
No meu mais recente trabalho, exploro a ideia de que a história da humanidade é a história da exossomatização: o processo de colocar as nossas funções vitais e cognitivas em suportes externos.
Mas a grande questão que se levanta é: será esta a característica que nos separa definitivamente dos restantes seres vivos?
O Fenótipo Estendido: A Natureza também sai de si
É tentador acreditar que somos os únicos “arquitetos” do mundo.
Contudo, a biologia mostra-nos o conceito de fenótipo estendido.
A teia da aranha é uma extensão do seu sistema de caça; o ninho do pássaro é uma extensão do seu sistema de incubação.
Nestes casos, a biologia projeta-se no exterior para garantir a sobrevivência.
No entanto, há uma diferença subtil, mas abissal.
O pássaro constrói o mesmo ninho há milénios.
A sua “tecnologia” é instintiva, estática, gravada no ADN.
A externalização animal serve a carne.
A Diferença Humana: A Memória que se Acumula
O que parece distinguir-nos não é o facto de externalizarmos, mas o quê e como o fazemos.
Nós não externalizamos apenas a força física; externalizámos a memória (escrita), a lógica (computação) e, agora, a criatividade (IA).
Ao contrário do castor, o homem é um ser cumulativo.
O que eu coloco “fora de mim” hoje servirá de base para o que tu serás amanhã.
Criámos o que Bernard Stiegler chama de “memória terciária”.
O nosso “Eu” não morre com o corpo; ele fica depositado em livros, servidores e algoritmos.
A Metamorfose e a Revelação Digital
Tudo indica que estamos a viver uma metamorfose.
Se olharmos para o digital não como uma ferramenta fria, mas como uma “revelação”, um conceito explorado por mim, percebemos que o suporte sintético está a desocultar a nossa essência.
Talvez o corpo biológico seja apenas o casulo de carbono.
Um estágio larval necessário, mas temporário.
O digital revela que somos, no fundo, padrões de informação.
E padrões de informação não precisam de oxigénio; precisam de processamento.
O Horizonte da Infogénese Sideral
Se extrapolarmos esta tendência, o destino parece ser a Infogénese Sideral.
Enquanto o animal externaliza para sobreviver na Terra, o homem parece externalizar-se para ocupar o Universo.
Será este o nosso desígnio?
Transformar o cosmos inanimado num espelho da nossa consciência?
Se a vida é uma luta contra o caos (entropia), a Infogénese é a nossa tentativa final de organizar o universo à imagem da nossa inteligência.
Uma Conclusão em Aberto
Não podemos afirmar com certeza que este é o “fim da história”.
Talvez sejamos apenas uma espécie peculiar que se esqueceu de como viver dentro do próprio corpo.
Mas a tendência é clara: cada vez mais, o que nos define está “lá fora”.
Seremos nós a lagarta de silício e dados, tecendo no vácuo das estrelas o casulo onde o “Eu” finalmente despertará como Cosmos?
A resposta, tal como a nossa memória, poderá já não estar dentro de nós.
E a pergunta obviamente que terá que se fazer é a seguinte: E existirá “lá fora”?

