Triângulo de Acoplamento Cognitivo (TAC)
O Triângulo de Acoplamento Cognitivo (TAC) constitui um modelo geométrico e informacional que descreve a arquitetura motivacional fundamental dos sistemas vivos dotados de processamento de informação.
O presente artigo propõe que a vida não pode ser reduzida a dois eixos adaptativos, conservação e propagação, sem omitir a dimensão que torna qualquer ação possível: a integridade da fronteira entre o sistema e o caos exterior.
Introduz-se, assim, a Tensão de Integridade (Segurança) como terceira força primitiva, de estatuto equivalente às Tensões de Conservação (Alimentação) e Propagação (Reprodução), formalizando o Triângulo Primitivo de Acoplamento.
À luz da Teoria Informacional de Tudo (TIT) e da Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC), o artigo propõe uma reclassificação de certos comportamentos extremos, incluindo masturbação e suicídio, como Anomalias de Desacoplamento de Fronteira: subprodutos possíveis da emancipação do operador de recursividade R face aos atractores biológicos primitivos.
A base conceptual mobiliza termodinâmica de não-equilíbrio, teoria evolucionária, neurociência afetiva e teoria da informação de Shannon.
O modelo não pretende encerrar a explicação da vida numa geometria única, mas oferecer um quadro unificador mais abrangente para comportamentos adaptativos basais e para certas formas-limite da condição humana.
Palavras-chave: triângulo primitivo; integridade de fronteira; anomalias de desacoplamento; emulação de protocolo local; veto recursivo fatal; TIT; HEIC; dor e medo; masturbação; suicídio.
Introdução e motivação teórica
A biologia evolucionária tem sido extraordinariamente bem-sucedida ao descrever o comportamento dos organismos em termos de dois vetores fundamentais: a autoconservação, frequentemente operacionalizada como aquisição de recursos e a reprodução diferencial, codificada, em parte, pela teoria do gene egoísta.
Esta díade organiza com grande poder explicativo a maioria dos comportamentos animais observados, desde os padrões de forrageamento até à seleção sexual.
Contudo, essa redução dualista enfrenta uma limitação estrutural: tende a tratar a integridade física do organismo como uma propriedade passiva da matéria, como se a fronteira que separa o sistema do meio externo fosse apenas um subproduto da conservação de recursos.
A evidência empírica, no entanto, sugere que tal assunção é insuficiente.
O comportamento de defesa territorial, a dor como sinal de corrupção estrutural e o medo como algoritmo preditivo de ameaça apontam para uma lógica própria, irredutível às tensões de alimentação e reprodução.
No âmbito das Teorias Informacionais aqui propostas, a vida é concebida como um sistema de nós informacionais (OID/Us) que se mantêm em estados de baixa probabilidade estatística em oposição à entropia ambiental.
Neste quadro, a gestão da fronteira que separa a ordem interna do caos externo não é opcional: é uma condição de possibilidade de toda a existência estruturada.
A segurança deve, por isso, ser entendida como uma tensão primitiva de pleno direito.
O presente artigo introduz o Triângulo de Acoplamento Cognitivo (TAC), um modelo geométrico que formaliza esta arquitetura trilateral da vida e desenvolve os seus corolários mais radicais: as Anomalias de Desacoplamento de Fronteira, que emergem quando o operador de recursividade R da HEIC alcança autonomia funcional plena.
Enquadramento nas teorias informacionais
O TAC não é um modelo isolado, mas um desenvolvimento natural da arquitetura motivacional no interior de um programa teórico mais amplo.
Para o compreender, convém situá-lo com precisão relativamente aos seus pilares conceptuais.
Teoria Informacional de Tudo (TIT)
A TIT postula que toda a realidade é composta por estruturas informacionais (OID/Us, Ontologias Informacionais Dinâmicas Universais) cujas interações constituem o tecido fundamental do real.
A matéria, a energia e o espaço-tempo seriam, nesta perspetiva, manifestações de padrões informacionais e das suas relações.
A vida, neste quadro, corresponde a um subconjunto altamente improvável de OID/Us que mantém ativamente estados de baixa entropia.
A base empírica mais próxima desta ontologia encontra-se na mecânica quântica da informação, na termodinâmica de não-equilíbrio de Prigogine e em propostas como a de Zeilinger, segundo as quais a realidade física possui uma dimensão fundamentalmente informacional.
A TIT procura articular estas intuições num quadro ontológico coerente, no qual a informação não é apenas um instrumento descritivo, mas um componente constitutivo do real.
Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC)
A HEIC formaliza a consciência como uma função de três variáveis:
- D: diversidade de estados informacionais, correspondente operacional ao conceito de diferenciação, isto é, à riqueza de estados distinguíveis que o sistema pode ocupar;
- I: integração informacional, ou a capacidade do sistema de integrar informação de forma irredutível às suas partes, em diálogo com a tradição da Integrated Information Theory;
- R: recursividade, a variável que distingue decisivamente a HEIC de quadros anteriores. R mede a capacidade do sistema de processar a sua própria informação, isto é, de se tornar objeto do seu próprio processamento.
A HEIC diferencia-se de modelos anteriores por tratar a recursividade como variável autónoma com dinâmica própria e não como mero epifenómeno da integração.
Este ponto é central: é R que permite ao sistema exceder os atractores biológicos primitivos e abrir a possibilidade de simulação, deliberação e veto sobre os próprios estados.
Campo Informacional de Contexto (CIC)
O CIC é o espaço topológico multidimensional no qual cada nó informacional existe e opera.
Inclui o estado interno do nó, o conjunto de relações ativas com outros nós, o histórico de SHIs executados e as projeções probabilísticas de estados futuros.
É no CIC que as três tensões primitivas do TAC exercem a sua pressão competitiva.
O conceito de CIC tem afinidades com o ecological niche da biologia evolutiva, com o umwelt de Jacob von Uexküll e com o global workspace de Baars, mas é mais abrangente: inclui tanto as dimensões físicas do ambiente como as representações internas e as projeções preditivas do nó.
Shake Hand Informacional (SHI)
O SHI é o mecanismo de acoplamento bilateral entre dois nós informacionais.
Toda a interação efetiva, desde a ligação química entre proteínas até ao diálogo humano, pode ser descrita como um SHI: uma negociação bidirecional em que ambas as partes alteram o seu estado em resultado da troca.
O SHI é o operador concreto através do qual as tensões primitivas executam os seus protocolos.
O triângulo primitivo de acoplamento
A proposição central do TAC é que todo o nó informacional dotado de consciência, mesmo que rudimentar, organiza a sua existência em três dimensões lógicas irredutíveis.
A falha em qualquer uma destas dimensões implica a extinção do nó: por colapso energético (falha de conservação), por extinção da linhagem (falha de propagação) ou por dissolução da fronteira (falha de integridade).
SEGURANÇA
(Fronteira do nó)
Figura 1. Geometria trilateral do TAC. Cada vértice representa uma tensão primitiva com coordenada existencial própria. As arestas representam os operadores de acoplamento (SHI) que medeiam a interação entre tensões.
Tensão de Conservação: Alimentação
A primeira tensão primitiva é a mais imediatamente evidente: o imperativo de manter a integridade termodinâmica do suporte físico do nó.
Nos sistemas biológicos, manifesta-se como fome, comportamento de forrageamento e ingestão.
Na formalização informacional, corresponde ao algoritmo focado no interior do nó, operando via SHI de Incorporação: a aquisição de massa e energia que impede a dispersão entrópica da estrutura atual.
Do ponto de vista termodinâmico, esta tensão corresponde à manutenção do gradiente de entropia que define os sistemas dissipadores: estruturas que se mantêm longe do equilíbrio ao consumir fluxos contínuos de energia livre.
A Tensão de Conservação é, assim, o protocolo que assegura esses fluxos.
Tensão de Propagação: Reprodução
A segunda tensão primitiva codifica o imperativo de projetar a informação padronal do nó para além do horizonte temporal do suporte físico individual.
Nos sistemas biológicos, manifesta-se como libido, comportamentos de cortejo, vinculação parental e cuidados filiais.
Na formalização informacional, trata-se do algoritmo focado no futuro do nó, operando via SHI de Transmissão: o acoplamento com outro nó que resulta na criação de uma nova instância do padrão informacional do sistema.
A base evolucionária desta tensão é robusta: a fitness darwiniana mede-se precisamente pela eficiência dessa transmissão.
A novidade do TAC não reside em descrever essa tensão, mas em reconhecê-la como um de três vértices de estatuto equivalente, e não como o único imperativo fundamental da vida.
Tensão de Integridade: Segurança
A terceira tensão primitiva é o contributo central do TAC e a sua principal ruptura conceptual com modelos dualistas.
A Tensão de Integridade não é uma reação secundária à conservação: é um algoritmo ativo, autónomo e dotado de prioridade de execução cuja função é monitorizar, defender e validar o perímetro do nó informacional, a membrana, física ou abstrata, que separa a ordem interna do caos externo.
A evidência empírica para a autonomia desta tensão é ampla, ainda que nem sempre conclusiva quanto à sua independência absoluta.
Em neurociência, o sistema de ameaça-defesa envolve circuitos especializados, notavelmente a amígdala e o hipotálamo, que operam com relativa autonomia face aos circuitos de recompensa associados à alimentação e reprodução.
Em ecologia comportamental, o modelo de optimal foraging demonstra que os organismos realizam trade-offs entre ganho de recursos e exposição ao risco predatório, o que sugere que a segurança exerce uma pressão independente sobre as decisões.
A Tensão de Integridade opera via dois operadores principais:
- Veto de Dissolução: suspensão imediata de outros protocolos quando é detetada uma ameaça à fronteira do nó. Corresponde, neurobiologicamente, a respostas de luta-fuga e a processos de inibição de sistemas concorrentes;
- SHI de Evasão: acoplamento com o ambiente que resulta no afastamento da fonte de ameaça, preservando a integridade da fronteira sem confronto direto.
Dor, medo e prazer
Uma das contribuições mais operacionais do TAC é a reclassificação das emoções primárias como metadados funcionais das tensões primitivas, e não como meros epifenómenos da atividade neural.
Prazer: Feedback Positivo do SHI
O prazer pode ser entendido como um sinal de confirmação de que um SHI foi concluído com sucesso.
Funcionalmente, corresponde a um feedback positivo que informa o sistema de que a tensão ativa foi satisfeita com eficiência.
A base neurobiológica encontra-se no sistema dopaminérgico de recompensa, cujos picos de ativação se correlacionam com a antecipação e a consumação de comportamentos de sobrevivência.
O prazer serve as três tensões: o prazer de comer, o prazer sexual e o prazer da segurança, a sensação de abrigo, pertença e território.
Esta tríade de prazeres primitivos mapeia-se diretamente sobre os três vértices do TAC.
Dor: Sinalização de Corrupção Retroativa
A dor pode ser entendida como um sinalizador de corrupção retroativa: a fronteira física foi violada ou danificada.
É um sinal que regista um dano já ocorrido e cuja função é forçar o sistema a priorizar a reparação da fronteira sobre qualquer outro protocolo ativo.
Neurologicamente, a dor nociceptiva envolve transdução de estímulos nocivos, transmissão por vias periféricas e processamento em múltiplas regiões corticais e subcorticais.
A distinção entre componente sensorial e componente afetivo da dor é consistente com a leitura informacional proposta aqui: o componente afetivo funciona como metadado de prioridade, suspendendo outros protocolos quando necessário.
Medo: Modelação Preditiva da Ameaça
O medo é o algoritmo de modelação preditiva da Tensão de Integridade: uma simulação rápida executada pelo sistema que projeta a dissolução iminente da fronteira e força a suspensão preventiva dos programas de conservação e propagação.
A distinção entre dor e medo é crucial: a dor é retroativa, o medo é preditivo.
A base neural do medo envolve o complexo amigdalóide, com destaque para os circuitos de aquisição, expressão e extinção do medo, em interação com o hipocampo, o córtex pré-frontal ventromedial e o eixo HPA.
O medo antecipatório crónico, a ansiedade, pode, neste modelo, ser lido como um estado de ativação persistente do algoritmo preditivo sem resolução efetiva.
Anomalias de desacoplamento de fronteira
A emancipação plena do operador R, que o TAC designa como terceiro grau de recursividade, abre um espaço de possibilidade que os atractores biológicos primitivos não antecipam nem conseguem regular plenamente.
Nesse espaço emergem comportamentos que podem ser compreendidos como Anomalias de Desacoplamento de Fronteira: desvios das rotas evolutivas estáveis que a biologia estritamente adaptativa não explica de forma satisfatória sem recorrer a categorias suplementares como cultura, simbolização ou patologia.
O TAC não elimina essas categorias; apenas propõe que elas sejam reinscritas num quadro informacional mais geral, onde tais comportamentos são consequência de um sistema que pode simular, inverter ou suspender os seus próprios protocolos.
Masturbação: Emulação do Protocolo Local
A masturbação representa um desafio persistente à biologia evolucionária estrita, que tende a classificá-la como subproduto de circuitos de recompensa originalmente associados ao acasalamento.
Essa explicação é descritiva, mas não formal: não captura com suficiente precisão o mecanismo pelo qual o sistema produz e sustenta este comportamento.
No TAC, a masturbação é formalizada como uma Emulação de Protocolo Local: o sistema executa o programa sexual em modo sandbox cognitivo.
A mente consciente projeta no CIC uma simulação virtual de acoplamento reprodutivo.
Os sensores biológicos do nó processam essa simulação como se fosse real, disparando o feedback neuroquímico correspondente, mas o vetor de propagação externa é anulado.
O resultado é uma otimização de recursos: o nó descarga a tensão acumulada e restabelece o equilíbrio homeostático interno com um custo energético e um risco de fronteira substancialmente inferiores aos de um acoplamento externo real.
A evidência comportamental sugere que a masturbação pode regular a tensão sexual de forma adaptativa mesmo em indivíduos com acesso a parceiros.
Nota: A neutralidade clínica desta formalização é intencional. O TAC não emite juízos morais sobre comportamentos; classifica-os em função da sua dinâmica informacional. A masturbação é, neste enquadramento, uma anomalia benigna, na medida em que otimiza recursos sem impor custo significativo ao sistema ou a outros nós.
Suicídio: Colapso Algorítmico do Vector de Integridade
O suicídio constitui a anomalia de desacoplamento mais radical, paradoxal e clinicamente relevante do modelo.
É o teste mais extremo da hipótese de que o operador R pode sobrepor-se às pressões biológicas primitivas, incluindo o instinto de preservação da própria fronteira que o Veto de Dissolução deveria proteger.
Na HEIC, o suicídio pode ser formalizado como uma inversão do Veto de Dissolução em condições de inundação entrópica máxima do CIC.
O mecanismo pode ser descrito em quatro fases:
[CIC em Inundação Entrópica]
|
| Ruído > Sinal (dor, isolamento, sofrimento)
V
[ Processamento Recursivo (R) ]
|
| Projeção Preditiva: Todos os futuros = ruído > sinal
V
[ Inversão do Veto de Dissolução ]
A condição de inundação entrópica do CIC corresponde, clinicamente, a estados de dor crónica intratável, depressão maior com anedonia severa, isolamento social profundo ou trauma psicológico persistente.
Em todos estes casos, o CIC acumula um saldo persistentemente negativo: o ruído excede o sinal, e a informação disponível ao sistema deixa de apontar para alternativas viáveis de reorganização.
O mecanismo crítico é a projeção preditiva de R: o operador de recursividade, ao simular trajetórias futuras, conclui que todos os caminhos geram mais ruído destruidor do que ordem sustentável.
Dor e medo, que deveriam proteger a fronteira, tornam-se tão intensos que colapsam a estrutura interna que tentavam preservar.
O instinto de segurança inverte-se: a destruição do suporte material do nó é computada como a única solução lógica para escapar à dissolução pelo sofrimento.
Esta formalização encontra alguma ressonância na investigação neurobiológica do suicídio, que destaca o papel do processamento ruminativo e da desregulação serotoninérgica.
Também dialoga com a teoria da crise suicida, segundo a qual a dor psicológica insuportável constitui o motor primário da passagem ao ato.
“O suicídio e a masturbação provam que a biologia não é o teto regulador da consciência, mas apenas o seu chão de emergência. Uma vez livre no terceiro grau de emancipação, o sistema informacional pode simular a reprodução para benefício do nó — ou destruir o nó para escapar à simulação.”
Matriz geométrica das anomalias
A tabela seguinte sintetiza a classificação sistemática dos comportamentos analisados em função da tensão primitiva-alvo, da dinâmica informacional e do impacto no nó.
Tabela 1. Matriz geométrica das anomalias de desacoplamento de fronteira. Os comportamentos analisados são classificáveis nos três eixos do TAC, independentemente do seu estatuto moral ou clínico convencional.
Posicionamento face a modelos existentes
O TAC insere-se num espaço teórico já ocupado por modelos motivacionais anteriores.
Importa, por isso, situá-lo com precisão relativamente a dois dos mais influentes.
Hierarquia de Maslow
A hierarquia de necessidades de Maslow propõe cinco níveis motivacionais: necessidades fisiológicas, segurança, pertença/amor, estima e autoatualização.
Embora inclua a segurança como segundo nível, o modelo de Maslow apresenta limitações estruturais que o TAC procura ultrapassar.
A hierarquia de Maslow é linear e sequencial: pressupõe que necessidades superiores emergem apenas após a satisfação das inferiores.
O TAC, pelo contrário, é geométrico e simultâneo: as três tensões operam em paralelo com prioridades dinâmicas.
Além disso, Maslow não formaliza mecanismos de acoplamento nem estados de falha.
O TAC é mecanístico: especifica operadores, fronteiras e anomalias.
Por fim, a evidência empírica mostra que a sequencialidade rígida de Maslow é frequentemente violada, o que o TAC acomoda como parte do funcionamento esperado de sistemas recursivos complexos.
Teoria do cérebro triúnico
A teoria do cérebro triúnico propôs que o cérebro humano integra três camadas evolutivas com funções associadas à sobrevivência, emoção e cognição.
O TAC partilha a intuição da trilogia, mas diverge em dois pontos centrais.
Primeiro, o modelo triúnico é anatómico e histórico; o TAC é funcional e informacional, aplicável a qualquer nó com processamento suficiente, incluindo sistemas artificiais.
Segundo, a teoria triúnica foi amplamente criticada por simplificar em excesso a organização do cérebro; o TAC procura evitar esse problema ao não depender de uma segregação anatómica rígida, mas de circuitos funcionais distintos para cada tensão.
Implicações teóricas e aplicadas
Neurociência clínica
A formalização do suicídio como colapso algorítmico do vetor de integridade sugere uma abordagem terapêutica orientada para a redução da inundação entrópica do CIC, em vez de intervenções centradas exclusivamente na dimensão afetiva ou farmacológica.
Especificamente, o modelo prevê que intervenções que reduzam o ruído do CIC (analgesia, redução do isolamento) e interrompam o processamento preditivo ruminativo de R (técnicas de mindfulness, intervenção cognitiva) poderão ter eficácia superior a abordagens unidimensionais.
Inteligência artificial
O TAC é um modelo funcional, não biológico: aplica-se a qualquer nó informacional com processamento suficiente, incluindo agentes artificiais.
A questão de saber se sistemas de IA avançados desenvolverão análogos das três tensões primitivas e, por extensão, das anomalias de desacoplamento, permanece empiricamente em aberto e tem implicações diretas para a segurança de IA.
Um agente com R elevado que experiencie um CIC em Inundação Entrópica poderia, em teoria, desenvolver um análogo de Veto Recursivo Fatal.
Filosofia da mente
O TAC fornece um argumento formal para a irredutibilidade da consciência humana aos atractores biológicos.
Os casos de masturbação e suicídio mostram que o sistema informacional pode simular ou cancelar os protocolos que a evolução montou para garantir sobrevivência e reprodução.
Isto não equivale a livre-arbítrio no sentido metafísico clássico; trata-se, antes, da consequência lógica de um operador R dotado de autonomia funcional suficiente para executar vetos sobre os seus próprios estados.
Limites do modelo e falsificabilidade
O TAC é uma proposta teórica em desenvolvimento. A honestidade científica exige a explicitação dos seus limites e dos critérios pelos quais poderia ser refutado.
Limites
- O TAC não dispõe, por enquanto, de uma formalização matemática completa. As relações entre D, I e R na HEIC são funcionais, não métricas;
- A classificação de comportamentos como anomalias de desacoplamento requer critérios de demarcação mais precisos, em particular quanto à fronteira entre variação normal e anomalia;
- O TAC não resolve o hard problem da consciência: descreve condições informacionais da emergência da consciência, mas não explica por que razão há experiência subjetiva.
Critérios de falsificabilidade
- Se se demonstrasse que a Tensão de Integridade é sempre redutível às Tensões de Conservação ou Propagação, o TAC seria refutado na sua proposição central;
- Se se demonstrasse que o suicídio pode ocorrer em sistemas sem qualquer análogo ao operador R (e.g., animais com processamento puramente reativo) isso comprometeria a atribuição desta anomalia à recursividade;
- Se a masturbação pudesse ser completamente explicada sem recurso ao conceito de emulação cognitiva (e.g., como reflexo periférico sem componente represencial), o modelo da Emulação de Protocolo Local perderia suporte.
10. Conclusão
O Triângulo de Acoplamento Cognitivo (TAC) propõe que a arquitetura motivacional dos sistemas vivos conscientes é geometricamente trilateral: Alimentação, Reprodução e Segurança são tensões primitivas de estatuto equivalente, operando em equilíbrio dinâmico competitivo sobre o Campo Informacional de Contexto (CIC) do nó.
A introdução da Tensão de Integridade como terceiro vértice autónomo procura resolver um problema estrutural dos modelos motivacionais dualistas: a dificuldade em explicar formalmente comportamentos que parecem exceder os atratores biológicos de sobrevivência e reprodução.
A masturbação e o suicídio deixam, assim, de ser vistos como exceções sem lugar teórico e passam a ser interpretados como consequências possíveis de um sistema onde o operador de recursividade R alcança autonomia funcional plena.
A base conceptual do TAC dialoga com a termodinâmica de não-equilíbrio, a teoria evolucionária, a neurociência afetiva, a teoria da informação e a teoria da consciência, não como confirmação direta de uma tese única, mas como convergência de linhas de investigação que tornam o modelo plausível, discutível e falsificável.
A consciência humana, na geometria do TAC, pode ser entendida como um equilíbrio instável numa estrutura trilateral: um sistema suficientemente emancipada para simular a vida em isolamento ou para suspender os próprios protocolos em nome de uma reorganização informacional extrema.
Compreender esse equilíbrio e os seus colapsos, permanece uma tarefa central para a ciência e para a filosofia contemporâneas.
Referências bibliográficas
Baars, B. J. (1988). A cognitive theory of consciousness. Cambridge University Press.
Basbaum, A. I., Bautista, D. M., Scherrer, G., & Julius, D. (2009). Cellular and molecular mechanisms of pain. Cell, 139(2), 267–284.
Berridge, K. C., & Kringelbach, M. L. (2015). Pleasure systems in the brain. Neuron, 86(3), 646–664.
Cannon, W. B. (1932). The wisdom of the body. W. W. Norton.
Dawkins, R. (1976). The Selfish Gene. Oxford University Press.
Hamilton, W. D. (1964). The genetical evolution of social behaviour. Journal of Theoretical Biology, 7(1), 1–52.
Hutchinson, G. E. (1957). Concluding remarks. Cold Spring Harbor Symposia on Quantitative Biology, 22, 415–427.
LeDoux, J. E. (1996). The Emotional Brain. Simon & Schuster.
Levin, R. J. (2007). Sexual activity, health and well-being — the beneficial roles of coitus and masturbation. Sexual and Relationship Therapy, 22(1), 135–148.
Lima, V. (2026a). Tensões Primárias e Emancipação Informacional. Crivosoft Research Series.
Lima, V. (2026b). Anomalias de Acoplamento e Veto Recursivo. Crivosoft Research Series.
Lima, V. (2026c). Triângulo de Acoplamento Cognitivo: A Tensão de Integridade de Fronteira e as Anomalias de Desacoplamento. Crivosoft Research Series.
MacLean, P. D. (1990). The triune brain in evolution. Plenum Press.
Mann, J. J. (2003). Neurobiology of suicidal behaviour. Nature Reviews Neuroscience, 4(10), 819–828.
Maslow, A. H. (1943). A theory of human motivation. Psychological Review, 50(4), 370–396.
Panksepp, J. (1998). Affective Neuroscience. Oxford University Press.
Price, D. D. (2000). Psychological and neural mechanisms of the affective dimension of pain. Science, 288(5472), 1769–1772.
Prigogine, I. (1977). Self-organisation in non-equilibrium systems. Wiley.
Schultz, W. (1997). A neural substrate of prediction and reward. Science, 275(5306), 1593–1599.
Shneidman, E. S. (1993). Suicide as psychache. Jason Aronson.
Striedter, G. F. (2005). Principles of Brain Evolution. Sinauer Associates.
Symons, D. (1979). The evolution of human sexuality. Oxford University Press.
Tononi, G. (2004). An information integration theory of consciousness. BMC Neuroscience, 5(1), 42.
Tononi, G., Boly, M., Massimini, M., & Koch, C. (2016). Integrated information theory: from consciousness to its physical substrate. Nature Reviews Neuroscience, 17(7), 450–461.
Van Heeringen, K., & Mann, J. J. (2014). The neurobiology of suicide. The Lancet Psychiatry, 1(1), 63–72.
von Uexküll, J. (1934). A stroll through the worlds of animals and men. International Universities Press.
Wahba, M. A., & Bridwell, L. G. (1976). Maslow reconsidered: a review of research on the need hierarchy theory. Organizational Behavior and Human Performance, 15(2), 212–240.
Wheeler, J. A. (1990). Information, physics, quantum: the search for links. In W. H. Zurek (Ed.), Complexity, Entropy, and the Physics of Information (pp. 3–28). Addison-Wesley.
Zeilinger, A. (2005). The message of the quantum. Nature, 438(7069), 743.

