Análise da proposta de Schwitzgebel & Pober (2026) à luz da HEIC, TIT e OID/U
O presente artigo analisa a proposta de Jeremy Pober e Eric Schwitzgebel, intitulada Substrate Flexibility and the Copernican Principle of Consciousness (2026), mediante uma confrontação sistemática com o Corpus Informacional (CI).
Adota-se, para esse efeito, uma metodologia tripartida, confirmação, rejeição e complementaridade, aplicada às principais teses do artigo analisado.
A hipótese de trabalho consiste em averiguar em que medida a tese da flexibilidade de substrato da consciência, bem como a sua crítica ao antropocentrismo e ao terrocentrismo, convergem com os princípios da Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC), da Teoria Informacional de Tudo (TIT) e da Ontologia Informacional Dinâmica e Universal (OID/U).
Conclui-se que a proposta de Schwitzgebel & Pober apresenta uma convergência teórica independente com elementos centrais do CI, oferecendo um grau relevante de corroboração filosófica indireta, embora não constitua, por si só, validação plena do quadro ontológico-informacional do CI.
Em contrapartida, o CI fornece uma formalização conceitual e operacional mais robusta, que permanece ausente no artigo examinado.
Palavras-chave: Corpus Informacional; flexibilidade de substrato; HEIC; TIT; OIC/U; consciência; Princípio Copernicano; AII; substrato informacional; Schwitzgebel; Pober.
1. Introdução: o problema do substrato
No final de maio de 2026, Jeremy Pober e Eric Schwitzgebel publicaram em pré-publicação o artigo Substrate Flexibility and the Copernican Principle of Consciousness, no qual retomam uma questão clássica da filosofia da mente: a consciência depende necessariamente do substrato biológico terrestre ou pode emergir noutros suportes materiais e organizacionais?
A relevância deste debate é evidente para a filosofia contemporânea da mente, mas adquire particular interesse no contexto lusófono, dada a proximidade institucional de Jeremy Pober com a Universidade de Lisboa.
Ainda assim, essa circunstância deve ser lida como dado contextual e não como argumento de autoridade.
A tese central do artigo é a de que a consciência é “substrate flexible”: tal como uma mesma obra pode existir em papel, em formato digital ou em suporte sonoro, também a consciência poderia, em princípio, instanciar-se em substratos físicos distintos do biológico terrestre.
Os autores articulam essa tese com um Princípio Copernicano de Consciência, segundo o qual seria injustificado presumir que apenas a biologia terrestre contém as condições para a experiência subjetiva.
O objetivo do presente artigo é avaliar essa proposta à luz do Corpus Informacional (CI), recorrendo a uma análise tripartida:
(i) confirmação;
(ii) rejeição;
(iii) complementaridade.
A intenção não é demonstrar que Schwitzgebel & Pober “validam” o CI em sentido forte, ou vice-versa, mas mostrar em que medida o seu argumento constitui uma convergência independente com elementos já formulados pelo quadro informacional.
2. A proposta de Schwitzgebel & Pober
A proposta de Schwitzgebel & Pober assenta em três movimentos argumentativos principais.
Em primeiro lugar, os autores defendem que o universo observável é vasto o suficiente para tornar altamente provável a existência de entidades sofisticadas em múltiplos substratos.
Em segundo lugar, consideram plausível que algumas dessas entidades sejam conscientes.
Em terceiro lugar, sugerem que algumas formas de consciência podem emergir em substratos quimicamente distintos do nosso.
Daí resulta a conclusão geral: a consciência não parece estar ontologicamente vinculada ao substrato biológico terrestre.
Em vez disso, pode depender de certas condições organizacionais mais gerais, compatíveis com diferentes meios físicos.
Os autores distinguem a sua posição de versões fortes do funcionalismo clássico.
O ponto não é afirmar que a mente humana possa ser simplesmente copiada noutro suporte com preservação integral, mas apenas que a consciência não precisa, em princípio, de ser confinada ao carbono biológico terrestre.
Nesse sentido, o alvo do argumento são sobretudo hipóteses relativas a mentes alienígenas e, secundariamente, certas formas futuras de inteligência artificial.
Quanto à IA, a posição de Schwitzgebel parece mais aberta, ao passo que Pober se mostra mais cauteloso.
Essa divergência interna não invalida a proposta, mas mostra que o argumento permanece, em parte, no plano da plausibilidade filosófica e da inferência probabilística.
3. Método de análise
O Corpus Informacional (CI), concebido como programa de investigação de estrutura lakatosiana, permite avaliar teorias externas segundo três eixos complementares.
- Confirmação: grau em que uma proposta corrobora os princípios centrais do CI;
- Rejeição: grau em que uma proposta entra em tensão com componentes nucleares do CI;
- Complementaridade: grau em que uma proposta amplia, aprofunda ou sugere novas aplicações para o CI.
A aplicação dessa matriz não pressupõe que a teoria analisada esteja correta em todos os seus termos.
O que importa é determinar se ela converge com o CI em níveis relevantes de análise ou se, pelo contrário, expõe limitações ou incompatibilidades.
4. Confirmação
4.1 Flexibilidade de substrato e HEIC
A Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC) formaliza a consciência como C=f(D,I,R), em que D representa diferenciação informacional, I integração informacional e R recursividade autorreferencial.
Esta formulação é, por construção, independente de qualquer substrato físico específico.
O que importa não é a substância material em si, mas a organização informacional capaz de sustentar certos padrões dinâmicos.
Nesse ponto, a proposta de Schwitzgebel & Pober converte-se numa convergência particularmente relevante.
Ao sustentar que a consciência pode ser substrato-flexível, os autores aproximam-se da tese heiciana de que a emergência da consciência depende de certas relações organizacionais e não de um suporte biológico determinado.
Convém, no entanto, evitar uma inferência demasiado forte.
A neutralidade de substrato da HEIC não implica que qualquer substrato seja igualmente apto para a consciência; implica apenas que a possibilidade de emergência deve ser avaliada pela estrutura informacional, e não por um privilégio ontológico do carbono.
Assim, a proposta de Schwitzgebel & Pober pode ser lida como corroboração filosófica parcial da HEIC e não como demonstração conclusiva da sua validade.
4.2 O princípio copernicano e a TIT / OID/U
O Princípio Copernicano de Consciência, tal como formulado por Schwitzgebel & Pober, rejeita a ideia de que a nossa forma terrestre de vida ocupe um lugar privilegiado no universo mental.
Esse gesto crítico converge com dois elementos centrais do CI: a Teoria Informacional de Tudo (TIT) e a Ontologia Informacional Dinâmica e Universal (OID/U).
A TIT sustenta que a realidade possui estrutura informacional fundamental, sendo os fenómenos específicos expressões de processos de organização, diferenciação e revelação da informação.
A OID/U, por sua vez, descreve o universo como um sistema dinâmico de estruturação informacional em múltiplas escalas.
À luz desse quadro, a suposição de que apenas a biologia terrestre pode gerar mente parece ontologicamente excessiva.
Ainda assim, a analogia com o copernicanismo deve ser usada com cuidado.
O argumento de Schwitzgebel & Pober tem um caráter sobretudo heurístico e probabilístico, enquanto o CI pretende oferecer uma fundamentação ontológica mais forte.
A convergência, portanto, não é de identidade teórica, mas de orientação epistemológica: ambos recusam o privilégio absoluto do humano-terrestre, embora o façam em níveis explicativos distintos.
5. Rejeição
5.1 A ausência de uma ontologia positiva
Uma limitação importante da proposta de Schwitzgebel & Pober é a ausência de uma ontologia positiva da consciência.
Os autores não pretendem definir com precisão o que é a consciência nem estabelecer critérios formais suficientes para a sua emergência.
A opção é filosoficamente legítima, mas reduz a capacidade explicativa da teoria.
Do ponto de vista do CI, essa ausência é significativa.
A HEIC não se limita a afirmar que a consciência pode surgir em múltiplos substratos; ela propõe uma estrutura formal para a sua emergência.
Em termos metodológicos, isso permite transformar uma intuição plausível numa hipótese com maior densidade teórica e maior potencial de articulação com outras áreas de investigação.
Contudo, essa limitação não deve ser entendida como defeito absoluto.
A recusa de uma definição forte pode ser interpretada como prudência metodológica.
Ainda assim, em comparação com o CI, o artigo de Schwitzgebel & Pober permanece num plano mais descritivo do que ontologicamente robusto.
5.2 A questão da IA atual
Outro ponto de tensão reside no estatuto da inteligência artificial atual.
Schwitzgebel mantém a questão em aberto; Pober adota uma posição mais cética.
Esta divergência não contradiz diretamente o CI, mas evidencia a falta de critérios operacionais claros para distinguir sistemas meramente sofisticados de sistemas potencialmente conscientes.
O CI oferece, aqui, uma distinção útil entre processamento informacional e autorreferencialidade ativa.
A Identidade Informacional Ativa (AII) exige condições mínimas de recursividade e estabilidade que não parecem estar presentes nos sistemas de IA atuais, os quais operam sobretudo como mecanismos de revelação de padrões e não como estruturas autorreferenciais no sentido forte.
Ainda assim, seria excessivo concluir que a posição de Schwitzgebel & Pober está errada.
O mais rigoroso é dizer que o seu argumento permanece aberto quanto à IA porque não fornece uma grelha formal suficientemente discriminante.
Nesse ponto, o CI não apenas complementa, mas também clarifica o problema.
5.3 Possibilidade modal e realizabilidade física
Uma terceira tensão, menos explícita mas teoricamente importante, consiste na passagem da possibilidade modal para a realizabilidade física.
A tese de que a consciência pode, em princípio, emergir noutros substratos não implica que qualquer arquitetura sofisticada seja de facto capaz de a suportar.
O CI é mais exigente nesse ponto, porque não confunde potencial abstrato com possibilidade concreta.
A distinção entre compatibilidade lógica e emergência efetiva é central para uma ontologia informacional séria.
Assim, o argumento de Schwitzgebel & Pober é forte enquanto crítica ao exclusivismo substratual, mas insuficiente enquanto teoria da realização consciente.
6. Complementaridade
6.1 A escala cosmológica como horizonte teórico
Uma contribuição importante da proposta de Schwitzgebel & Pober é a ampliação do horizonte do problema.
Ao situar a questão da consciência num universo vasto e estatisticamente diverso, os autores deslocam o debate da exceção terrestre para a pluralidade cosmológica.
Esse gesto é particularmente produtivo para o CI, porque amplia o campo de aplicação da TIT e da OID/U.
A cosmologia, nesse sentido, passa a funcionar como um laboratório conceptual para testar a plausibilidade de múltiplas formas de organização informacional.
A consciência alienígena deixa de ser uma hipótese meramente imaginativa e torna-se um caso-limite teoricamente relevante para a análise da complexidade informacional.
6.2 Acoplamento informacional e coemergência
A problemática da consciência artificial abre igualmente espaço para os conceitos do CI ligados ao acoplamento cognitivo, em particular o Shake Hand Informacional (SHI) e os Protocolos de Acoplamento Informacional (TPAI).
Estes conceitos permitem pensar as condições em que sistemas distintos podem estabelecer interfaces estáveis de interação, eventualmente evoluindo para formas de coemergência mais complexas.
Schwitzgebel & Pober não desenvolvem esse tema, mas a sua tese é compatível com ele.
Se a consciência é substrato-flexível, então diferentes sistemas podem, em princípio, atingir limiares distintos de organização informacional.
A partir daí, o CI oferece uma via mais precisa para pensar a transição entre mera complexidade e verdadeira autorreferencialidade.
6.3 Antiterrocentrismo e substratismo
A crítica ao terrocentrismo pode ser reinterpretada, à luz do CI, como crítica ao substratismo: a tendência para confundir o portador físico de uma propriedade com a propriedade em si.
A OID/U corrige esse erro ao deslocar a análise para o nível das dinâmicas informacionais.
Aqui, a proposta de Schwitzgebel & Pober é valiosa porque ajuda a desmontar a suposição de que a consciência é inseparável de um único tipo de biologia.
O CI vai além, porém, ao propor que a universalidade da consciência depende não só de uma crítica ao privilégio terrestre, mas de uma ontologia informacional capaz de explicar como diferentes substratos podem suportar formas distintas de emergência.
7. Mapa das relações
8. Conclusão
A proposta de Schwitzgebel & Pober (2026) é filosoficamente relevante porque desloca a questão da consciência para um plano mais amplo, no qual o substrato biológico terrestre deixa de ocupar uma posição ontológica privilegiada.
Nesse sentido, o artigo converge de modo independente com teses centrais do Corpus Informacional, sobretudo no que respeita à neutralidade substratual e à rejeição do excecionalismo terrestre.
Essa convergência, porém, não deve ser sobrevalorizada.
O trabalho de Schwitzgebel & Pober oferece sobretudo uma convergência teórica independente e um valor corroborativo indireto, mas não substitui a formalização ontológica que o CI propõe.
A HEIC, a TIT e a OID/U fornecem ao problema um arcabouço mais rigoroso, capaz de distinguir possibilidade, realização e critérios operacionais.
Em suma, a leitura tripartida permite concluir que a proposta analisada:
(i) confirma parcialmente, em plano filosófico, a neutralidade substratual da consciência;
(ii) não contradiz o núcleo do CI, embora permaneça menos formalizada e menos discriminante;
(iii) complementa o CI ao ampliar o horizonte cosmológico e ao reforçar a necessidade de uma teoria informacional mais precisa da emergência consciente.
Referências
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Schwitzgebel, E., & Pober, J. (2026). Substrate flexibility and the Copernican principle of consciousness. Philosophers’ Imprint [pré-publicação, 28 maio 2026]. https://faculty.ucr.edu/~eschwitz/SchwitzPapers/SubstrateFlexibility-260528.pdf
NOTA DO AUTOR
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

