Diálogo com Peirce e o Corpus Informacional
A semiótica triádica de Charles Sanders Peirce e o Corpus Informacional partilham uma intuição fundacional: nem a matéria nem a mente esgotam o inventário do real, e uma terceira dimensão, relação, signo, mediação ou informação, exige estatuto próprio.
Ainda assim, o Corpus Informacional tem operado com dois usos de “informação” nem sempre suficientemente distinguidos: um uso semiótico-processual, em que a informação é entendida como signo e relação triádica de significação, e um uso ontológico-substancial, em que a informação é tomada como tecido do real, tal como propõe a Ontologia Informacional Dinâmica Universal, através dos estados de Estabilidade Passiva e Estabilidade Activa.
Este artigo propõe uma ponte formal entre esses dois registos, sem os confundir, por meio do Modelo Triádico de Revelação Informacional (MTRI), que estabelece correspondências estruturais entre as categorias peirceanas, Primeiridade, Secundidade e Terceiridade e os operadores centrais da Teoria da Revelação Digital: a Informação em Potencial Revelável e a Informação em Actualidade Revelável.
A análise segue o método canónico do Corpus, confirmação, rejeição e complementaridade e conclui que a semiótica peirceana não sustenta, por si só, a tese substancialista forte da OID/U, mas fornece-lhe um mecanismo processual que até aqui permanecia implícito, ao mesmo tempo que recebe, da ontologia informacional, uma ancoragem formal mais ampla do que a que Peirce explicitamente desenvolveu.
Abstract
Charles Sanders Peirce’s triadic semiotics and the Corpus Informacional share a founding intuition: neither matter nor mind exhausts the inventory of the real, and a third dimension, relation, sign, mediation, or information, requires its own status.
Yet the Corpus Informacional has so far operated with two uses of “information” that have not always been sufficiently distinguished: a semiotic-processual use, in which information is understood as sign and triadic relation of signification, and a substantial-ontological use, in which information is treated as the fabric of reality, as proposed by the Ontologia Informacional Dinâmica Universal through the states of Passive Stability and Active Stability.
This article proposes a formal bridge between these two registers without conflating them, by means of the Triadic Model of Informational Revelation, which establishes structural correspondences between Peirce’s categories, Firstness, Secondness, and Thirdness, and the central operators of the Teoria da Revelação Digital: Potentially Revelable Information and Actualized Revelable Information.
The analysis follows the Corpus’s canonical method, confirmation, rejection, and complementarity, and concludes that Peircean semiotics does not, by itself, sustain the strong substantialist thesis of OID/U, but provides it with a processual mechanism that remained implicit, while receiving from informational ontology a broader formal anchoring than Peirce explicitly developed.
Palavras-chave
semiótica triádica; Charles Sanders Peirce; Corpus Informacional; Teoria da Revelação Digital; Ontologia Informacional Dinâmica Universal; informação-enquanto-signo; informação-enquanto-substância.
Introdução
Toda a teoria que eleva a informação a categoria fundamental do real enfrenta, cedo ou tarde, uma bifurcação terminológica que raramente é assumida com o rigor necessário.
Por um lado, “informação” designa aquilo que um signo faz: a relação pela qual algo representa algo para alguém, no quadro da semiótica peirceana.
Por outro, “informação” designa aquilo que as coisas são: um princípio ontológico primário, anterior e independente de qualquer intérprete, tal como o Corpus Informacional o articula através da Ontologia Informacional Dinâmica Universal e dos seus estados de Estabilidade Passiva e Estabilidade Activa.
Esses dois usos não são equivalentes.
Quando permanecem apenas justapostos, sem distinção explícita, introduzem uma ambiguidade que fragiliza a coerência do programa.
Se “informação” significa coisas diferentes conforme o nível teórico em que é invocada, o Corpus corre o risco de oscilar entre um registo semiótico-processual e um registo ontológico-substancial sem declarar a passagem entre ambos.
Este artigo toma como tarefa precisamente a construção dessa passagem: não uma fusão, mas uma articulação formal.
Para isso, recorre à arquitetura mais robusta de que a filosofia da informação dispõe no plano semiótico: a tríade Representamen–Objecto–Interpretante e as categorias Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.
A hipótese de trabalho é simples: o Corpus Informacional já contém, em estado disperso, elementos compatíveis com uma leitura triádica; falta apenas tornar explícito o mecanismo que os organiza.
O resultado dessa formalização será o Modelo Triádico de Revelação Informacional, ou MTRI.
O método adotado é o método canónico do Corpus: confirmar, rejeitar ou complementar teses do programa à luz de Peirce.
Isso permite evitar tanto a assimilação apologética de Peirce ao Corpus quanto a refutação sumária do Corpus por Peirce.
O objetivo é mais preciso: mapear zonas de convergência, fricção e necessidade mútua, mostrando onde o Corpus ganha em rigor e onde a semiótica peirceana encontra uma extensão ontológica que não desenvolveu por si mesma.
1. Fundamentos da semiótica triádica de Peirce
1.1. As três categorias fenomenológicas
Peirce funda a sua arquitetura filosófica numa fenomenologia de três categorias irredutíveis: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.
A Primeiridade é a categoria da qualidade pura, da possibilidade ainda não referida a nada, daquilo que é tal como é, antes de qualquer determinação relacional.
A Secundidade é a categoria da existência factual, da resistência e da reação, do encontro com algo que se impõe.
A Terceiridade, por fim, é a categoria da mediação, da lei, do hábito e da generalidade, isto é, daquilo que torna inteligíveis e relacionáveis os termos isolados.
Esta tripartição não é meramente descritiva.
Ela exprime uma tese de estrutura: nenhuma destas categorias se reduz às outras sem perda conceptual, e nenhuma explicação suficientemente completa dos fenómenos dispensa a sua articulação conjunta.
Em Peirce, a força do triádico está precisamente em recusar que a mediação possa ser derivada de uma simples soma de relações diádicas.
1.2. A estrutura triádica do signo
Sobre essa base, Peirce define o signo, ou representamen, não como uma entidade isolada, mas como um dos termos de uma relação irredutivelmente triádica: o Representamen, o Objeto e o Interpretante.
O representamen é aquilo que está no lugar de algo, para alguém, sob certo aspeto; o objecto é aquilo a que o signo se refere; o interpretante é o efeito de significação produzido, ele próprio já estruturado como novo signo.
A consequência central desta definição é que o interpretante não é um estado mental imóvel, mas um novo momento semiótico.
A semiose é, assim, potencialmente ilimitada: cada interpretante pode gerar outro interpretante, numa cadeia que só se interrompe por estabilizações práticas e provisórias, nunca por um fecho lógico absoluto.
O signo não toca o seu objeto de forma imediata; relaciona-se com ele por mediações sucessivas que tornam a determinação progressiva e sempre revisível.
1.3. Realismo escolástico e falibilismo
Importa sublinhar que Peirce não é um idealista subjetivista.
A sua posição é um realismo escolástico, segundo o qual as generalidades e as leis possuem realidade objetiva, independentemente de qualquer mente individual, embora dependam de processos interpretativos para a sua manifestação.
O real é aquilo para o qual uma investigação suficientemente prolongada tenderia, idealmente, a convergir.
Essa dimensão falibilista e comunitária será decisiva para a análise crítica do Corpus.
Ela mostra que, em Peirce, a significação não é uma operação privada de um observador isolado, mas um processo que pressupõe hábitos partilhados e uma comunidade de investigação, ainda que apenas em sentido ideal.
2. A lacuna entre signo e substância
O Corpus Informacional, através da Teoria da Revelação Digital, descreve a informação em termos processuais: a Informação em Potencial Revelável é aquilo que ainda não se atualizou, mas que possui estrutura para o fazer; a Informação em Atualidade Revelável é a informação já atualizada como tal, acessível a um sistema ou processo.
À primeira vista, esta distinção aproxima-se fortemente da transição peirceana entre o indeterminado, a mediação e a fixação interpretativa.
Contudo, a OID/U vai mais longe e atribui à informação um estatuto ontológico primário.
As estabilidades passiva e ativa não descrevem apenas uma dinâmica de revelação epistémica; descrevem modos de ser da realidade.
É aqui que surge a lacuna: se a informação é substância, então não pode ser automaticamente reduzida à informação-signo sem uma mediação formal explícita.
Peirce não oferece, por si só, essa mediação no plano ontológico forte; o Corpus, por sua vez, ainda não a tinha explicitado no plano processual.
A tarefa do artigo é precisamente construir essa ponte, sem apagar a diferença entre os dois registos.
A hipótese é que a ligação entre ambos pode ser formalizada por correspondências estruturais, e não por identidade ontológica.
3. O modelo triádico
Propõe-se, então, o Modelo Triádico de Revelação Informacional.
O ponto central do modelo é que as categorias peirceanas e os operadores do Corpus se alinham por analogia funcional, não por equivalência absoluta.
Primeiridade corresponde à condição pré-actual da IPR e à Estabilidade Passiva: trata-se do plano da possibilidade qualitativa, ainda não fixada numa relação determinada.
Secundidade corresponde ao momento de colisão ou resistência que desencadeia a transição entre estabilidade passiva e activa: é o instante em que algo força a atualização informacional.
Terceiridade corresponde ao papel do interpretante como operador de mediação, fixação e inteligibilidade, permitindo que a atualização deixe de ser mero choque e se torne revelação estruturada.
Nesta formulação, a passagem de EP para EA deixa de ser uma seta primitiva e passa a ser analisável como processo triádico.
O MTRI não afirma que Peirce “já continha” a OID/U, nem que a OID/U é simples prolongamento de Peirce.
Afirma algo mais controlado: que a semiótica peirceana oferece a forma processual que faltava para articular o regime de revelação do Corpus com o seu regime ontológico.
4. Análise tripartida: confirmação, rejeição e complementaridade
4.1. Confirmação
Em vários pontos decisivos, a semiótica triádica de Peirce confirma teses já presentes no Corpus Informacional.
Em primeiro lugar, ambas as arquiteturas recusam a suficiência do dualismo diádico.
Peirce mostra que uma relação genuinamente triádica não se reduz a uma soma de relações binárias sem perda de conteúdo; de modo análogo, o Corpus recusa que o real se esgote na oposição matéria/mente, exigindo uma terceira dimensão informacional irredutível.
Em segundo lugar, ambas as tradições tratam a determinação do real como processo e não como dado fixo.
A semiose ilimitada de Peirce e a transição IPR → IAR da TRD descrevem, cada uma no seu vocabulário, uma passagem do indeterminado ao determinado que nunca se encerra numa única atualização.
Em ambos os casos, a determinação é conquistada, estabilizada e revisável.
Em terceiro lugar, ambas rejeitam um realismo ingénuo da representação.
O signo peirceano não copia o objeto; a informação revelada da TRD também não é mera reprodução passiva de um estado prévio.
Em ambos os quadros, a atualização acrescenta estrutura, em vez de apenas registrar uma presença anterior.
4.2. Rejeição
A honestidade metodológica exige reconhecer também os pontos em que a semiótica peirceana não confirma, e em rigor tensiona, certas formulações do Corpus.
O primeiro ponto é decisivo: para Peirce, não existe signo e, em sentido estrito, não existe informação semiótica plena, fora de uma relação triádica efetivamente instanciada com um interpretante, atual ou pelo menos possível no horizonte de uma comunidade de investigação.
Um suposto substrato informacional que existisse como informação independentemente de qualquer interpretante possível seria, para Peirce, algo ainda pré-semiotizado: uma Primeiridade, isto é, uma qualidade ou potencialidade ainda não determinada relacionalmente.
Nesta leitura, a forma mais forte da tese substancialista da OID/U, a ideia de que a informação é, enquanto tal, o tecido do real independentemente de qualquer processo interpretativo, não encontra apoio direto em Peirce.
O que encontra é apenas um correlato parcial: a possibilidade ainda não atualizada, que pertence à Primeiridade, mas que não equivale a informação em sentido semiótico pleno.
O segundo ponto de rejeição decorre do pragmaticismo comunitário de Peirce.
A fixação de um interpretante não é, para ele, um acto isolado de um observador único, mas um processo regulado por hábitos partilhados e, no limite, por uma comunidade ilimitada de investigadores.
O modelo EP/EA, tal como vinha formulado no Corpus, ainda podia ser lido numa gramática excessivamente individual ou sistémica.
A semiótica peirceana não confirma essa gramática sem reservas; ao contrário, obriga a reconhecer que qualquer fixação robusta de IAR pressupõe uma dimensão comunitária ou intersubjetiva que o Corpus ainda não tinha formalizado de modo suficiente.
4.3. Complementaridade
É no registo da complementaridade que a semiótica peirceana oferece o seu contributo mais fértil ao Corpus Informacional.
Onde a TRD postulava uma transição IPR → IAR sem mecanismo interno explicitado, o MTRI propõe uma decomposição em três momentos analiticamente distintos: Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.
O ganho não é apenas terminológico; é explicativo.
A seta única passa a ser pensável como sequência de condições, transição e estabilização.
Onde a HEIC postulava um termo R na equação C=f(D,I,R) sem uma teoria interna do seu funcionamento, o interpretante peirceano oferece um candidato formal claro: R pode ser entendido como o resultado de um processo de fixação interpretativa que emerge quando densidade e integração informacional atingem um limiar de operação.
Assim, o operador R deixa de ser um termo obscuro e passa a ser uma função mediadora suscetível de análise.
Reciprocamente, o Corpus Informacional complementa Peirce ao oferecer uma resposta ontológica que Peirce deixou em aberto por prudência filosófica.
Se Peirce não comprometeu a sua semiótica com uma definição última da natureza do objecto, o Corpus propõe que o objeto último de toda a semiose é informação, entendida aqui não como mera mensagem, mas como substrato ontológico dinâmico.
Nesta leitura, o Corpus não contradiz Peirce; amplia-o em direção a uma ontologia informacional que permanece compatível com a sua lógica triádica, embora vá além dela.
4.4. Síntese crítica
A relação entre Peirce e o Corpus não é de tradução total nem de incompatibilidade absoluta.
É uma relação assimétrica, na qual Peirce fornece a arquitetura formal do processo e o Corpus fornece uma tese ontológica mais forte sobre o estatuto do real.
O MTRI funciona, assim, como dispositivo de articulação: ele mostra onde a semiótica confirma o Corpus, onde o contesta e onde o completa.
O resultado mais importante desta secção é metodológico.
O Corpus Informacional deve distinguir explicitamente, em cada uso de “informação”, se opera no registo semiótico-processual ou no registo ontológico-substancial.
Sem essa distinção, a teoria arrisca confundir níveis de análise e transformar uma ponte formal numa identificação apressada.
Com ela, o Corpus ganha precisão, e a semiótica peirceana ganha um campo de aplicação ontológico mais nítido.
5. Tabela de síntese
6. Implicações para o Corpus Informacional
A principal implicação deste artigo é metodológica antes de ser doutrinal.
O Corpus Informacional deve distinguir, de forma explícita, os dois regimes em que “informação” é usada: o regime semiótico-processual, articulado pela TRD e pelo MTRI, e o regime ontológico-substancial, próprio da OID/U.
O ganho não está em fundi-los, mas em torná-los articuláveis sem colapsarem um no outro.
Uma segunda implicação, deixada aqui como programa de investigação, é a necessidade de uma extensão comunitária ou intersubjetiva do par EP/EA.
Se a fixação interpretativa depende, em Peirce, de hábitos partilhados por uma comunidade de investigação, então a Estabilidade Activa pode ter de ser repensada como propriedade distribuída por uma rede de sistemas interpretantes, e não apenas como estado local de um único sistema.
Essa reformulação não enfraquece o Corpus; ao contrário, dá-lhe maior robustez conceptual.
Conclusão
Peirce não confirma o Corpus Informacional em toda a sua extensão, nem o Corpus Informacional se deixa reduzir a uma aplicação da semiótica peirceana.
O que este artigo mostra é algo mais preciso: a tríade Representamen–Objecto–Interpretante fornece a arquitetura formal que faltava para articular, sem confundir, os dois sentidos de “informação” em circulação no Corpus, o sentido semiótico-processual da TRD e o sentido ontológico-substancial da OID/U.
O Modelo Triádico de Revelação Informacional não fecha a questão; apenas a torna formalmente tratável.
A sua força está exatamente aí: em mostrar que a relação entre signo e substância não precisa ser pensada como oposição irreconciliável, mas como diferença articulável por um mecanismo triádico de revelação.
E é essa articulação que torna o Corpus mais rigoroso, mais coerente e mais filosoficamente defensável.
Referências
Peirce, C. S. Collected Papers of Charles Sanders Peirce, vols. 1–8 (C. Hartshorne, P. Weiss & A. Burks, eds.). Harvard University Press.
Peirce, C. S. “What Is a Sign?”, in The Essential Peirce, vol. 2. Indiana University Press.
Peirce, C. S. “Logic as Semiotic: The Theory of Signs”, in Philosophical Writings of Peirce (J. Buchler, ed.). Dover Publications.
Lakatos, I. “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes”, in Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge University Press.
Lima, V. Tudo é Informação. Crivosoft Research, 2023.
Lima, V. Tudo São Peças. Crivosoft Research, 2024.
Lima, V., & Martinho, D. (2025). Synthetic somatic markers in the Pixelverse. Biomimetics. https://doi.org/10.3390/biomimetics11010063
NOTA DO AUTOR
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

