Um Quadro Conceptual para o Estudo da Centralidade Simbólica do Self na Era da Inteligência Artificial
A expansão das plataformas digitais, da personalização algorítmica e dos sistemas de inteligência artificial tem alterado as formas pelas quais os indivíduos se representam, reconhecem, preservam e projetam socialmente.
Este artigo propõe o conceito de Autoidolatria Informacional como instrumento analítico para estudar situações em que a representação informacional de uma pessoa, composta por dados, perfis, arquivos, padrões linguísticos, reputação, modelos algorítmicos e agentes personalizados, adquire centralidade afetiva, normativa e existencial.
A proposta não sustenta que a identidade digital seja equivalente à pessoa, que sistemas de IA possuam consciência, nem que toda gestão de presença online constitua uma forma de idolatria.
Defende, antes, que determinados contextos sociotécnicos podem levar os indivíduos e as instituições a investir recursos emocionais, sociais, económicos e simbólicos na construção, preservação e otimização de continuidades informacionais do self.
O artigo distingue três conceitos: identidade informacional, continuidade informacional e autoidolatria informacional.
Em seguida, situa a proposta perante as teorias do narcisismo, da economia da atenção, do capitalismo de vigilância, da mente estendida e da identidade algorítmica.
Por fim, formula hipóteses investigáveis, delimita condições de refutação e propõe uma agenda empírica interdisciplinar.
O objetivo não é oferecer uma lei histórica universal, mas um quadro conceptual capaz de investigar uma transformação emergente na relação entre identidade, informação e inteligência artificial.
Palavras-chave: identidade informacional; inteligência artificial; identidade digital; legado digital; reconhecimento; plataformas; autoidolatria informacional.
1. Introdução
As sociedades digitais não transformaram apenas os meios de comunicação.
Transformaram também as condições materiais e simbólicas através das quais os indivíduos se tornam visíveis, reconhecíveis, memorizáveis e socialmente operacionais.
Perfis, fotografias, mensagens, dados de localização, interações, métricas de reputação, registos biométricos e padrões linguísticos constituem hoje traços persistentes de uma presença que circula para além da situação presencial e, em certos casos, para além da própria vida biológica.
Essa transformação não deve ser reduzida à mera existência de dados.
Os dados pessoais sempre tiveram relevância administrativa, jurídica ou económica.
A novidade contemporânea reside na combinação entre três processos: a produção contínua de rastos digitais; a análise e personalização algorítmicas desses rastos; e a emergência de sistemas de IA capazes de reorganizar, simular ou reativar aspetos externalizáveis de uma pessoa, como a sua linguagem, memória documentada, preferências ou estilo de comunicação.
A investigação recente mostra que os utilizadores compreendem as representações algorítmicas de si próprios como multifacetadas, mutáveis e por vezes discrepantes relativamente ao self vivido.
Tais representações não são espelhos neutros: resultam da interação entre comportamento, curadoria de plataforma e sistemas de recomendação.
Do mesmo modo, os agentes de “vida digital pós-morte” ou AI afterlife demonstram que arquivos pessoais podem ser convertidos em sistemas conversacionais destinados a manter uma presença comunicativa após a morte, embora essa presença permaneça mediada, construída e limitada pelos dados e pelo desenho técnico.
Este artigo propõe o conceito de Autoidolatria Informacional para examinar uma possibilidade específica: a de que a representação informacional de uma pessoa possa tornar-se objeto de investimento simbólico intenso, ultrapassando a sua função meramente instrumental.
A tese não é que os seres humanos tenham abandonado a religião ou que toda utilização de tecnologia seja uma forma de culto de si.
É mais restrita: em determinados ecossistemas digitais, a identidade informacional pode adquirir uma centralidade suficiente para orientar práticas de preservação, otimização, defesa, valorização e continuidade do self.
A contribuição pretendida é conceptual.
O artigo oferece uma linguagem para analisar fenómenos que as teorias existentes explicam apenas parcialmente: a gestão obsessiva da reputação digital, a preservação de legados informacionais, a delegação identitária a agentes de IA, a ansiedade perante a perda de dados pessoais e a crescente valorização de representações capazes de persistir e agir na ausência do seu titular.
2. Da centralidade simbólica à identidade informacional
A história das sociedades humanas revela múltiplas formas de orientação em torno de entidades, valores e instituições dotados de autoridade simbólica: natureza, deuses, Deus, razão, nação, progresso, humanidade, comunidade ou indivíduo.
Contudo, não é metodologicamente sustentável tratar essa diversidade como uma sequência universal, linear e necessária.
Por isso, em vez de um “Princípio da Conservação da Adoração”, propõe-se aqui uma formulação mais prudente: a Hipótese da Persistência da Centralidade Simbólica.
Segundo esta hipótese, muitas sociedades organizam parte das suas práticas, valores e narrativas em torno de referentes que consideram especialmente dignos de proteção, confiança, sacrifício ou orientação.
Esses referentes variam histórica e culturalmente, coexistem e podem entrar em conflito.
A hipótese não pretende provar que todos os seres humanos possuem uma necessidade invariável de adorar.
Pretende apenas sustentar que, em múltiplos contextos históricos, certas entidades ou valores se tornam polos de elevada centralidade normativa e afetiva.
Nas sociedades digitais contemporâneas, uma das questões relevantes consiste em saber se a identidade informacional está a adquirir esse estatuto em certos grupos, práticas e instituições.
A passagem para o digital não substitui automaticamente referências religiosas, familiares, políticas ou comunitárias.
O que se observa é uma reconfiguração das condições de reconhecimento.
A identidade passa a ser continuamente registada, quantificada, classificada e tornada visível por infraestruturas que medem atenção, reputação, influência, desempenho e interação.
Nessa medida, a pessoa torna-se também um conjunto de representações operacionalizáveis.
3. Três conceitos fundamentais
A clareza conceptual exige distinguir três níveis analíticos.
3.1. Identidade informacional
Por identidade informacional entende-se o conjunto estruturado, dinâmico e socialmente operável de dados, registos, padrões, representações e modelos associados a uma pessoa.
Inclui, entre outros elementos:
- perfis e credenciais digitais;
- arquivos de texto, imagem, som e vídeo;
- registos administrativos e biométricos;
- históricos de interação e comportamento;
- padrões linguísticos e preferências documentadas;
- relações e redes sociais digitalmente registadas;
- inferências produzidas por sistemas algorítmicos;
- agentes de IA configurados com dados ou instruções pessoais.
A identidade informacional não deve ser confundida com a totalidade da pessoa.
Não equivale à experiência subjetiva, à consciência, ao corpo vivo, à responsabilidade moral ou à singularidade fenomenológica do indivíduo.
Trata-se, antes, de uma dimensão representacional e operacional: um conjunto de traços que pode ser armazenado, processado, interpretado e mobilizado por instituições e sistemas técnicos.
3.2. Continuidade informacional
Por continuidade informacional entende-se a persistência funcional de componentes externalizáveis da identidade através de arquivos, plataformas, bases de dados ou sistemas de IA.
Essa continuidade pode manifestar-se quando:
- um perfil permanece ativo ou memorializado;
- uma obra continua acessível e influencia novos públicos;
- arquivos pessoais são recuperados e reinterpretados;
- um sistema reproduz parcialmente um estilo linguístico;
- um agente personalizado responde a partir de dados, preferências ou documentos de alguém.
A continuidade informacional não implica continuidade de consciência.
Um agente que imita a escrita de uma pessoa não é essa pessoa; um arquivo biográfico não constitui uma subjetividade sobrevivente; um avatar póstumo não prova que o indivíduo continua a experienciar o mundo.
A investigação sobre identidades póstumas digitais sublinha precisamente que essas representações são mediadas, seletivas e construídas, não cópias ontologicamente idênticas do sujeito falecido.
3.3. Autoidolatria informacional
A Autoidolatria Informacional designa o processo pelo qual uma pessoa ou um grupo atribui à sua própria identidade informacional uma centralidade afetiva, simbólica e normativa desproporcionada, investindo na sua preservação, otimização, expansão ou defesa como se dela dependesse uma dimensão decisiva do seu valor, continuidade ou reconhecimento.
O conceito só se aplica quando estão presentes, em grau relevante, três condições:
Esta definição evita dois erros frequentes.
O primeiro é patologizar práticas legítimas, como preservar arquivos familiares, proteger dados, gerir uma reputação profissional ou utilizar ferramentas de IA no trabalho.
O segundo é considerar que toda preocupação digital constitui narcisismo.
Uma professora que mantém um arquivo digital da sua obra para garantir acesso futuro aos seus textos exerce uma prática de preservação intelectual.
Um criador que depende de métricas para obter rendimento realiza uma atividade profissional em plataformas.
Só se poderá falar em autoidolatria informacional quando esses elementos se converterem em núcleo dominante de validação, continuidade e valor existencial.
4. Diálogo com teorias existentes
A proposta não pretende substituir os principais modelos já disponíveis.
O seu valor dependerá da capacidade de mostrar que explica uma configuração específica deixada parcialmente indeterminada por esses modelos.
O conceito de narcisismo continua importante.
Ele permite compreender a procura de admiração, a necessidade de validação e a gestão da imagem.
No entanto, a autoidolatria informacional desloca o foco para uma condição sociotécnica em que as representações podem tornar-se relativamente autónomas: permanecem visíveis, acumulam interações, alimentam sistemas de recomendação, são mobilizadas comercialmente e podem ser reativadas por agentes de IA.
A economia da atenção, por sua vez, explica como plataformas transformam a visibilidade num recurso escasso e mensurável.
Contudo, não responde inteiramente à questão de saber por que razão certos indivíduos passam a entender a preservação da sua pegada digital como forma de continuidade pessoal.
É neste ponto que a TAI pretende operar: não como explicação total, mas como lente para estudar a passagem da representação funcional à centralidade identitária.
5. Inteligência artificial e continuidade funcional
A IA acrescenta uma diferença qualitativa ao ecossistema da identidade informacional.
Arquivos tradicionais preservam rastos; sistemas de IA podem reorganizar esses rastos, gerar linguagem, inferir padrões e produzir respostas contextualmente adaptadas.
Isto permite formas novas de presença representacional.
Todavia, é essencial evitar antropomorfismos.
Um modelo de linguagem treinado com escritos de alguém pode aproximar-se do seu vocabulário ou estilo argumentativo, mas não demonstra possuir a sua consciência, interioridade ou experiência vivida.
A representação continua a ser uma construção probabilística baseada em dados disponíveis, condicionada pelo modelo, pelo contexto de interação e pelas decisões de quem a configura.
Os sistemas de legado digital baseados em IA ilustram essa ambiguidade.
Podem funcionar como arquivos interativos, instrumentos de memória, mediação do luto ou preservação de conhecimento.
Estudos recentes identificam, porém, preocupações relacionadas com consentimento, privacidade póstuma, autenticidade, bem-estar psicológico e possível manipulação emocional.
A TAI não afirma que estas tecnologias conduzirão inevitavelmente à “imortalidade digital”.
Sustenta apenas que a possibilidade de reativar traços documentados da identidade pode aumentar o valor atribuído à preservação e ao controlo de dados pessoais.
A questão científica não é saber se uma pessoa sobrevive numa máquina, mas investigar se os indivíduos passam a considerar a sua continuidade informacional como dimensão relevante da sua existência social e simbólica.
6. Hipóteses de investigação
Enquanto programa de investigação, a TAI deve gerar hipóteses passíveis de confirmação, revisão ou rejeição.
Propõem-se cinco hipóteses iniciais.
H1 – Integração identitária
Quanto maior for a integração quotidiana de uma pessoa em ecossistemas digitais personalizados, maior tenderá a ser a importância atribuída à sua identidade informacional.
Indicadores possíveis: uso de serviços personalizados, centralidade atribuída a perfis, impacto emocional da perda de dados, frequência de práticas de arquivo e curadoria digital.
H2 – Investimento na continuidade
A disponibilidade de agentes personalizados de IA tenderá a aumentar o investimento na organização, preservação e controlo de dados identitários.
Indicadores possíveis: criação de arquivos para treino de agentes, utilização de assistentes personalizados, disposições testamentárias digitais, práticas de preservação de voz, imagem e escritos.
H3 – Distinção entre uso instrumental e centralidade simbólica
O uso intensivo de plataformas ou de IA não implicará necessariamente autoidolatria informacional.
Esta surgirá apenas quando a representação digital assumir função central de validação, continuidade ou valor existencial.
Esta hipótese é decisiva porque protege o conceito contra uma expansão excessiva.
Ela exige escalas capazes de distinguir intensidade de uso tecnológico de investimento simbólico no self informacional.
H4 – Reconfiguração do legado
Indivíduos expostos a ferramentas de IA generativa e agentes personalizados tenderão a mostrar maior abertura à transmissão de legados informacionais dinâmicos, tais como arquivos interativos ou agentes baseados em dados pessoais.
H5 – Relevância jurídico-institucional
À medida que aumentarem os conflitos relativos a voz sintética, imagem, dados póstumos, agentes personalizados e representação algorítmica, crescerá a procura por mecanismos de consentimento, revogação, auditoria e proteção da integridade identitária.
Esta hipótese não prevê que surjam necessariamente novos direitos fundamentais universais.
Prevê, de forma mais prudente, o aumento de disputas jurídicas e institucionais em torno da proteção da identidade informacional.
7. Proposta metodológica
A investigação empírica sobre autoidolatria informacional deve recorrer a métodos mistos.
Estudos quantitativos
Podem desenvolver escalas que avaliem:
- importância atribuída à reputação digital;
- práticas de preservação e curadoria de dados;
- perceção de perfis e dados como extensões do self;
- valorização de legados digitais;
- abertura à utilização de agentes personalizados;
- sofrimento associado à perda, distorção ou apropriação de dados pessoais.
Qualquer Índice de Autoidolatria Informacional deverá passar por validação psicométrica, incluindo análise fatorial, consistência interna, validade convergente, validade discriminante, estabilidade temporal e validação transcultural.
Estudos qualitativos
Entrevistas, etnografias digitais e estudos de caso podem esclarecer como diferentes pessoas interpretam os seus dados, avatares, arquivos e agentes de IA.
São especialmente importantes para distinguir práticas de autopreservação, exigências profissionais, luto, criatividade, pertença comunitária e centralidade simbólica.
Estudos jurídicos e institucionais
A análise comparada de legislação, jurisprudência, termos de serviço e políticas de plataformas permitirá observar como se configuram questões de identidade, consentimento, autenticidade, delegação e sucessão digital.
Estudos experimentais e longitudinais
Experiências controladas podem testar os efeitos de agentes personalizados na autoimagem, memória, confiança e tomada de decisão.
Estudos longitudinais são necessários para verificar se a integração com sistemas de IA produz alterações duradouras na perceção de continuidade pessoal ou apenas efeitos contextuais e transitórios.
8. Condições de refutação e limites
A TAI deverá ser revista, restringida ou abandonada se a investigação demonstrar, de modo consistente, que:
- a personalização algorítmica não altera significativamente a forma como os indivíduos interpretam ou valorizam a sua identidade informacional;
- a preservação de dados e o uso de agentes personalizados permanecem predominantemente instrumentais, sem centralidade simbólica ou existencial;
- os fenómenos descritos são inteiramente explicados por modelos existentes, sem ganho analítico introduzido pelo novo conceito;
- não se verificam diferenças robustas entre mera participação digital e investimento identitário na representação informacional;
- a noção de autoidolatria não pode ser operacionalizada de forma distinta de narcisismo, dependência digital, preocupação reputacional ou intensidade de uso tecnológico.
A proposta possui também limites normativos.
Não deve converter práticas comuns de memória, autoproteção, trabalho digital ou construção de legado em patologia.
A preservação de dados pode ser racional, eticamente responsável e socialmente valiosa.
A questão relevante não é condenar a tecnologia, mas compreender quando a representação informacional deixa de ser um meio e passa a tornar-se um fim dominante.
9. Conclusão
A identidade contemporânea é cada vez mais produzida em interação com arquivos, plataformas, métricas, algoritmos e sistemas de inteligência artificial.
Essa condição não elimina o corpo, a consciência, a relação presencial ou as formas tradicionais de pertença.
Introduz, contudo, uma camada adicional: uma identidade informacional que pode ser registada, processada, projetada, monetizada, preservada e parcialmente reativada.
A Autoidolatria Informacional é proposta como conceito para investigar os casos em que essa camada deixa de desempenhar função meramente administrativa, comunicacional ou profissional e passa a adquirir centralidade simbólica, afetiva e normativa.
O conceito não descreve uma inevitabilidade histórica nem autoriza a confusão entre dados e pessoa.
Designa uma hipótese analítica sobre práticas emergentes de valorização do self informacional.
O contributo do quadro proposto será tanto maior quanto mais conseguir demonstrar três coisas: que distingue fenómenos diferentes sob critérios claros; que produz hipóteses empiricamente testáveis; e que oferece capacidade explicativa adicional relativamente às teorias já disponíveis.
A sua validade não dependerá da força retórica da metáfora da idolatria, mas da sua utilidade para compreender, com rigor, como os seres humanos passam a construir continuidade, reconhecimento e valor num mundo mediado pela informação.
Referências indicativas
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Clark, A., & Chalmers, D. J. (1998). The extended mind. Analysis, 58(1), 7–19.
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Lee, E., Mieczkowski, H., Ellison, N., & Hancock, J. (2022). The algorithmic crystal: Conceptualizing the self through algorithmic personalization on TikTok. ACM.
Lima, V. (s.d.). Adoramo-nos a Nós Próprios: O Princípio da Conservação da Adoração e a Emergência da Autoidolatria Informacional na Era da Inteligência Artificial [manuscrito não publicado].
Zuboff, S. (2019). The Age of Surveillance Capitalism. Profile Books.
NOTA DO AUTOR
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

