Corpus Informacional: A informação descreve a realidade ou constitui a realidade?
Há perguntas que parecem reservadas aos filósofos e há outras que, apesar da sua profundidade, qualquer pessoa consegue compreender.
Esta pertence ao segundo grupo: a informação é apenas uma descrição do mundo ou é o próprio tecido a partir do qual o mundo é construído
À primeira vista, pode parecer um debate académico, distante do quotidiano.
Mas dele dependem questões que atravessam toda a história do pensamento humano: o que é a matéria, como surge a ordem no universo, o que é a consciência e, no limite, o que significa existir.
Durante muito tempo, a resposta pareceu evidente.
Primeiro existia a realidade; depois surgiam seres capazes de a observar e descrever.
A informação seria apenas um retrato do real, mais ou menos fiel, mais ou menos detalhado, mas sempre posterior ao mundo que pretendia representar.
O Corpus Informacional convida-nos, porém, a considerar uma hipótese mais desconcertante: talvez aquilo a que chamamos realidade seja, na sua essência mais profunda, informação organizada.
A informação como mapa
Na perspetiva mais comum e também numa parte importante da tradição científica, o mundo existe independentemente das descrições que fazemos dele.
Uma montanha continua a existir mesmo que ninguém a observe.
Uma estrela continua a emitir luz mesmo que nenhum telescópio a aponte.
Um átomo permanece um átomo antes de alguém decidir estudá-lo.
Neste enquadramento, a informação funciona como um mapa.
O mapa pode ser bom ou mau, minucioso ou esquemático, mas nunca é o território.
Quando um físico descreve uma galáxia, quando um químico escreve uma fórmula molecular ou quando um historiador regista um acontecimento, todos estão a produzir informação acerca de algo que já existe.
A realidade vem primeiro.
A informação vem depois.
Esta forma de pensar parece natural porque corresponde à nossa experiência imediata.
Primeiro vemos uma árvore; depois falamos dela.
Primeiro ouvimos uma música; depois tentamos explicá-la.
Primeiro existe o objeto; depois surge a informação sobre ele.
Quando a ciência complica a certeza
Mas o desenvolvimento da ciência contemporânea tornou esta certeza menos confortável.
Ao observar a natureza com maior profundidade, descobrimos que muitas das suas características fundamentais podem ser expressas em termos informacionais.
O ADN não é apenas matéria: é informação biológica codificada.
O cérebro não é apenas um conjunto de neurónios: é um sistema que recolhe, transforma e integra informação.
Os computadores não funcionam por causa do silício em si, mas pela forma como organizam e manipulam estados físicos que podem ser interpretados como informação.
Também na física moderna, noções como estado quântico, entropia, codificação, bit quântico e informação física ganharam um peso considerável.
A informação deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação ou de cálculo para se tornar uma categoria central na descrição de sistemas naturais.
Daqui surge uma pergunta desconfortável:
Se tudo o que conhecemos depende de estruturas informacionais, será a informação apenas uma linguagem conveniente, ou algo mais fundamental?
O mundo como matéria ou como informação?
A posição fisicalista dominante tende a tratar a informação como uma propriedade de sistemas físicos.
Nesta perspetiva, associada sobretudo à ideia de que “a informação é física”, toda a informação exige um suporte material e o seu processamento obedece às leis da física.
Rolf Landauer defendeu precisamente isto: a informação não existe de forma abstrata e desencarnada, mas apenas através de representações físicas, com custos e limitações impostas pelas leis do universo.
Neste quadro, a informação pressupõe sempre um suporte físico.
Isso não prova, por si só, que a matéria seja o fundamento último da realidade, mas torna a informação dependente de processos e estruturas físicas.
Um livro precisa de papel, um ficheiro precisa de um disco e uma memória precisa de um cérebro.
Sem suporte, não haveria informação, pelo menos não no sentido em que a conhecemos.
A matéria permaneceria, assim, o ponto de partida mais sólido para a investigação científica.
A informação seria uma propriedade derivada de sistemas materiais.
A inversão do Corpus Informacional
O Corpus Informacional propõe precisamente a inversão desta hierarquia.
Não pergunta:
Como é que a matéria produz informação?
Pergunta antes:
Como é que a informação fundamenta — ou constitui — aquilo a que chamamos matéria?
A mudança parece pequena, mas as consequências, porém, são enormes.
Nesta perspetiva, partículas, átomos, estrelas, galáxias, organismos vivos e consciências não seriam os alicerces últimos da realidade.
Seriam manifestações de estruturas informacionais mais profundas.
A matéria seria comparável a uma imagem apresentada num ecrã.
A informação seria o código que torna essa imagem possível.
Quem observa apenas o ecrã conclui que a imagem é a realidade.
Quem compreende o sistema percebe que existe uma camada mais fundamental.
A analogia tem limites, claro.
Não se trata de afirmar que vivemos numa simulação nem de sugerir a existência de um programador invisível.
Serve apenas para tornar visível uma ideia: aquilo que observamos como “coisa” pode ser a expressão visível de uma organização mais profunda.
Esta linha de pensamento tem precedentes importantes.
John Archibald Wheeler formulou-a na célebre hipótese “it from bit”: a sugestão de que aquilo a que chamamos realidade física poderia derivar, no fundo, de escolhas binárias e de respostas registadas por atos de medição.
A analogia do romance
Imaginemos um romance.
Podemos pegar no livro e pesar o papel, podemos analisar a tinta, podemos estudar a composição química da capa.
Tudo isso é real.
Mas nenhuma dessas análises nos revela a história.
A essência da narrativa não está na tinta nem nas fibras do papel, está na informação organizada.
Se copiarmos integralmente o texto para formato digital, a história permanece.
Se o imprimirmos novamente, a história continua.
O suporte muda, a informação permanece.
O Corpus Informacional sugere que algo semelhante pode acontecer com o universo.
A matéria corresponderia ao suporte observável, mas aquilo que verdadeiramente persistiria seria a organização informacional.
O problema da identidade
Esta questão torna-se particularmente interessante quando pensamos em nós próprios.
O corpo humano renova continuamente uma parte das suas moléculas ao longo do tempo.
As células morrem, outras nascem.
Os átomos entram e saem.
E, no entanto, sentimos que permanecemos a mesma pessoa.
Porquê?
Uma resposta possível é que a identidade não depende da permanência integral da mesma matéria.
Depende antes de uma continuidade de organização, memória, função e relações.
O Corpus Informacional interpreta essa continuidade como continuidade informacional.
Tal como uma melodia continua a ser a mesma melodia independentemente do instrumento que a executa.
Mas importa não ir demasiado longe.
A identidade pessoal não se reduz a um padrão estrutural, envolve também memória, corpo vivido, relações sociais e narrativa biográfica.
A ideia de que somos, no essencial, padrões informacionais é uma interpretação, não um resultado experimental.
A consciência como fenómeno informacional
Talvez em nenhum outro domínio esta questão seja tão delicada como na consciência.
Se a matéria for fundamental, a consciência surge como uma consequência tardia de processos físicos extremamente complexos.
Se a informação for fundamental, a consciência poderá estar associada a certos tipos de organização informacional, particularmente integrados e dinâmicos.
Isto não significa que qualquer sistema informacional seja consciente.
Uma biblioteca não pensa e um disco rígido não sonha.
A simples acumulação de dados não produz experiência.
Significa apenas que a consciência pode deixar de ser encarada como uma exceção inexplicável num universo material e passar a ser entendida como uma possibilidade associada a certos tipos de organização informacional.
Ainda assim, esta hipótese não resolve o chamado problema difícil da consciência.
A informação pode ajudar a explicar funções como memória, integração, atenção ou processamento.
Mas não explica, por si só, por que razão certos padrões informacionais são acompanhados de experiência subjetiva e outros não.
Informação sobre o quê?
Os críticos desta visão levantam naturalmente uma objeção.
Se tudo é informação, informação sobre o quê?
Uma fotografia é informação sobre uma paisagem, uma palavra é informação sobre um conceito, uma equação é informação sobre um fenómeno.
Parece necessário existir sempre algo anterior à informação.
O Corpus Informacional responde que esta objeção nasce de uma compreensão demasiado dependente do modelo comunicacional.
No uso quotidiano, informação significa informação acerca de algo.
Mas num sentido mais profundo, informação pode significar estrutura, diferenciação, relação e organização.
Antes de existir uma descrição, já existem relações.
Antes de existir um observador, já existem padrões.
Por “informação primordial” não se entende necessariamente uma mensagem, um código linguístico ou um conteúdo consciente.
Entende-se antes uma diferenciação objetiva: a existência de distinções, relações e restrições que tornam possíveis estados, transformações e regularidades.
A informação primordial não descreveria a realidade, seria a própria realidade organizada.
Entre ciência e metafísica
É importante reconhecer que, neste ponto, entramos num território onde ciência e filosofia se aproximam, sem se confundirem.
A ciência consegue medir massas, energias, velocidades, temperaturas e, em certos contextos, quantidades de informação.
Consegue também estudar como a informação é registada, transmitida e transformada por sistemas físicos.
Já a questão sobre o que é ontologicamente mais fundamental, matéria ou informação, pertence também ao domínio da reflexão filosófica.
A ciência pode mostrar que a informação é indispensável para descrever e compreender o mundo.
Não pode, por si só, demonstrar que o mundo é informação.
A distinção decisiva é, portanto, entre uma tese epistemológica e uma tese ontológica.
A primeira afirma que a informação é indispensável para descrever, medir e compreender a realidade, enquanto a segunda afirma que a realidade é, no seu fundamento, informação.
A primeira é amplamente aceite nas ciências da informação, da computação e da física, a segunda permanece uma hipótese filosófica, ainda que tenha precedentes importantes no pensamento físico contemporâneo.
A visão científica convencional prefere normalmente a prudência.
Reconhece a importância crescente da informação, mas evita afirmar que ela constitui a substância última do universo.
O Corpus Informacional dá um passo adicional.
Propõe que a informação não é só uma ferramenta conceptual particularmente útil, mas o fundamento a partir do qual emergem matéria, energia, vida e consciência.
Um possível ponto de encontro
Talvez a oposição entre estas duas perspetivas seja menos absoluta do que parece.
A ciência contemporânea mostra-nos um universo onde a informação desempenha um papel cada vez mais central.
O Corpus Informacional convida-nos a perguntar se essa centralidade será apenas operacional ou verdadeiramente ontológica.
A divergência não está tanto na observação dos fenómenos, está na interpretação do seu significado último.
Ambas as perspetivas reconhecem a importância da informação.
A diferença é que uma a considera um atributo da realidade, enquanto a outra a considera o seu fundamento.
Reflexão final
Talvez estejamos perante uma das grandes mudanças conceptuais do nosso tempo.
Durante muito tempo, a nossa imagem espontânea do mundo foi a de uma realidade composta por objetos.
Depois aprendemos que os objetos são feitos de átomos.
Mais tarde descobrimos que os átomos são compostos por entidades ainda mais fundamentais.
Agora emerge uma nova possibilidade.
Talvez, no nível mais profundo, o universo não seja uma coleção de coisas, mas uma imensa rede de relações, distinções e padrões informacionais.
Se a visão tradicional estiver correta, a informação é o espelho através do qual observamos o mundo.
Se o Corpus Informacional estiver correto, a informação não é o espelho. É aquilo que o espelho reflete.
E talvez a pergunta mais intrigante não seja sequer saber se a informação descreve a realidade ou a constitui.
Talvez seja outra:
quando procuramos compreender o universo, estamos a descobrir informação sobre o real, ou estamos, gradualmente, a descobrir que o real sempre foi informação?
Fontes
Landauer, R. (1996). The Physical Nature of Information. Physics Letters A, 217(4–5), 188–193.
Wheeler, J. A. (1990). Information, Physics, Quantum: The Search for Links. In Proceedings of the 3rd International Symposium on Foundations of Quantum Mechanics, Tokyo, 1989.

