A Arte como Alquimia Urbana
Em cidades de todo o mundo, líderes visionários têm feito uma descoberta poderosa: a arte, quando integrada de forma estratégica no planeamento urbano, não é um luxo ornamental, mas sim um motor de transformação social, económica e identitária.
De políticas públicas ousadas a iniciativas comunitárias simples, o movimento para criar “cidades das artes” está a redefinir o espaço público como um palco democrático de encontro, criatividade e pertença.
Para Santarém, esta não é uma ideia abstrata.
É um caminho prático, pavimentado com dezenas de exemplos reais de sucesso.
Este artigo reúne mais de 40 iniciativas globais, com especial foco na Europa, demonstrando que existem modelos testados para cada orçamento, escala e contexto cultural.
Da lei francesa do “1% artístico” aos icónicos “Kelpies” escoceses, estas são as ideias que podem inspirar a construção da Santarém das Artes.
O Guia Global para Transformar uma Cidade com Políticas Culturais
Políticas Estruturantes: O “Percentual para a Arte”
Estas são as fundações legislativas que garantem que a arte se torna parte integrante do desenvolvimento urbano, não um pensamento posterior.
Modelos Europeus (os pioneiros):
- França – “1% Artistique” (1951): A matriz europeia. Obriga a destinar 1% do custo de qualquer obra pública à criação de arte integrada no edifício. Um modelo replicado em todo o continente.
- Finlândia: A cidade de Helsínquia tornou-se, em 1991, a primeira capital a aplicar este princípio a todos os seus projetos de construção, públicos e privados.
- Alemanha – “Kunst am Bau”: Uma diretriz federal que aplica 1% a 2% do custo de construção de edifícios públicos federais para arte, influenciando profundamente a paisagem urbana do país.
- República Checa (1966-1992): Uma política ambiciosa destinava 1% a 4% do orçamento de qualquer construção ao seu “embelezamento artístico”, gerando um legado de mais de 16.500 obras.
- Irlanda, Países Baixos, Áustria, Dinamarca, Noruega: Cada um desenvolveu o seu próprio esquema percentual, gerido a nível nacional ou regional, provando a adaptabilidade do modelo.
Modelos Norte-Americanos:
- Filadélfia (EUA) 1959: O primeiro programa “Percent for Art” dos EUA, focado inicialmente em reurbanizações.
- Los Angeles County (EUA): Expandiu a política para incluir projetos de desenvolvedores privados, ampliando significativamente o seu impacto.
- São Francisco (EUA): Tornou obrigatório para grandes projetos privados alocar 1% do custo para arte pública no local.
Medidas Obrigatórias: Quando a Arte é Condição
Algumas cidades foram mais além, tornando a instalação de arte uma condição para a licença de construção, criando coleções urbanas coerentes:
- Brea (Califórnia, EUA): Lei municipal exige escultura pública visível em projetos acima de 1,5M€. Acima de 4M€, a instalação é obrigatória.
- San Francisco (EUA): O código de planeamento urbano (Sec. 429) exige arte física em grandes desenvolvimentos privados.
- Zurique (Suíça): Mantém um debate e projeto contínuo sobre a aplicação de quotas de arte no espaço cívico, regulando ativamente a sua presença.
Semear o Futuro: Competições e Desafios para Jovens
O envolvimento das escolas é crucial para criar uma nova geração de artistas e públicos:
- Londres (Reino Unido) – “Fourth Plinth Schools Awards”: Alunos criam obras inspiradas no icónico Fourth Plinth da Trafalgar Square.
- Düsseldorf (Alemanha) – Concurso “Die Kleine”: Competição anual para alunos do primário, com exposição no Kunstpalast.
- Santa Clarita & Long Beach (EUA): Concursos anuais (“Art Hop”) que colocam a arte jovem no centro da programação cultural da cidade.
- Nova Iorque (EUA) – “P.S. Art”: Parceria entre escolas públicas e o Metropolitan Museum, culminando numa exposição no museu.
A Obra-Ícone: Encomendas que Definem uma Cidade
Uma única obra de um artista consagrado pode colocar uma cidade no mapa cultural mundial:
- Gateshead (Reino Unido) – “The Angel of the North” (Antony Gormley): O símbolo máximo de regeneração pós-industrial através da arte.
- Falkirk (Escócia) – “The Kelpies” (Andy Scott): Esculturas monumentais que são o motor de um parque ecológico e uma atração turística de primeira linha.
- Lisboa (Portugal) – Calçada de Amália por Vhils: Encomenda pública que une arte urbana contemporânea, património (calçada) e figura icónica (Amália).
- Praga (República Checa) – Obras de David Černý: A cidade abraçou as instalações provocadoras do artista, que agora definem parte da sua identidade irreverente.
- Bilbau (Espanha): Para além do Guggenheim, encomendas a Koons, Bourgeois e Kapoor solidificaram o seu estatuto de capital cultural.
- Paris (França) – “Bouquet of Tulips” (Jeff Koons): Uma doação/comissão que gerou debate internacional sobre o papel da arte contemporânea no espaço público histórico.
Programas Inovadores e Festivalização
- Grand Rapids (EUA) – “ArtPrize”: Competição internacional que transforma toda a cidade numa galeria, com voto público.
- Cidade do Cabo (África do Sul) – International Public Art Festival: Artistas convidados a criar obras in situ, com forte envolvimento comunitário.
- Melbourne (Austrália) – “Artful Play”: Desafia escolas a criar instalações lúdico-artísticas para parques.
- Estocolmo (Suécia) – Statens Konstråd: Conselho Nacional de Arte Pública que, desde 1937, gere a integração da arte contemporânea na sociedade.
- União Europeia – “Capital Europeia da Cultura”: Mecanismo que força cidades a desenvolverem estratégias culturais ambiciosas, deixando legados permanentes (ex: Guimarães 2012).
Conclusão: Construindo a Santarém das Artes, Bloco por Bloco
Este vasto repositório global não é um catálogo de sonhos inatingíveis.
É um menu de possibilidades concretas que Santarém pode adaptar à sua escala, orçamento e identidade ribatejana.
O caminho está desenhado e pode começar amanhã:
- Legislar com Visão: Adotar uma política municipal de “1% para a Arte”, aplicável a novos equipamentos públicos e grandes projetos privados. O modelo francês ou finlandês oferece um excelente ponto de partida.
- Criar o Ícone: Encomendar uma obra-símbolo a um artista português de renome (um Vhils, uma Joana Vasconcelos, um Bordalo II) que dialogue com o património de Santarém e se torne um novo ponto de referência.
- Semear nas Escolas: Lançar o “Desafio Artístico das Escolas do Ribatejo”, com os trabalhos vencedores a serem integrados em espaços públicos da cidade, seguindo o exemplo de Londres ou Düsseldorf.
- Celebrar e Incluir: Criar um festival anual de arte pública que ocupe praças, muros cegos e espaços subutilizados, envolvendo artistas locais e internacionais, à imagem do que faz a Cidade do Cabo.
A arte pública, quando democratizada, não embeleza apenas paredes; ela constrói comunidade, gera economia e escreve a história coletiva no espaço urbano.
Santarém tem todos os ingredientes, património, localização, tradição cultural, para se tornar um caso de estudo ibérico de sucesso.
Agora, tem também o mapa.
O próximo passo é começar a caminhar.

