A Peça que se Pergunta a Si Própria (10)
Os artigos anteriores construíram os fundamentos, os mecanismos e a identidade das teorias informacionais.
A partir deste artigo vamos chegar ao coração filosófico de tudo: o que é a consciência?
Como é que a matéria, ou a informação, começa a sentir?
E o que significa existir como ser consciente num universo que se revela a si próprio?
Três artigos, três escalas crescentes de consciência.
Este capítulo explora as condições da emergência, a HEIC.
O artigo seguinte explorará o que significa ser consciente de si próprio, a IIC.
O último dos três, leva esta linha de pensamento até à sua conclusão mais audaciosa: o universo como sistema consciente de ordem máxima, a IIC-Ω.
Esta é a parte mais lenta e mais contemplativa desta investigação que me aventurei a fazer.
Não porque seja menos rigorosa, porque o problema é genuinamente difícil e a honestidade intelectual exige que nos detenhamos perante a dificuldade em vez de a contornarmos.
O Mistério da Peça que Sente
A Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC), as condições necessárias para a experiência subjetiva
Pára um momento.
Fica um instante com o que está a acontecer enquanto lês estas palavras.
Há luz a entrar nos teus olhos.
Os teus fotorreceptores transformam essa luz em impulsos elétricos.
Esses impulsos percorrem o nervo ótico, chegam ao córtex visual, são processados, integrados com informação de outras áreas do cérebro, e produzem a experiência de ver estas palavras, de reconhecer letras, de entender significado, de sentir algo ao entender.
Tudo isso é física.
Electroquímica.
Protocolos TPAI de enorme complexidade.
E a ciência descreve este processo com detalhe crescente.
Mas há uma coisa que a ciência, por ora, não consegue explicar: porque é que há algo que é como estar a ler estas palavras.
Porque é que o processo não acontece no escuro, porque é que há experiência.
Podes descrever cada neurónio, cada sinapse, cada cascata química.
Mas em nenhum ponto desta descrição aparece a experiência.
Em nenhum ponto aparecem as palavras a iluminarem-se de significado, a sensação de reconhecimento, a qualidade subjetiva de entender.
Como é que o processo físico produz a experiência?
Este é o mistério mais profundo que a mente humana alguma vez formulou sobre si própria.
Como é que a matéria começa a sentir?
Como é que o processamento de informação produz experiência?
Em que ponto do aumento de complexidade neurológica emerge aquilo que é como ser este sistema?
O Hard Problem: O Problema que a Ciência Não Resolve (Ainda)
Em 1995, o filósofo australiano David Chalmers publicou um artigo que se tornou um dos mais citados e discutidos da filosofia contemporânea: Facing Up to the Problem of Consciousness.
Nesse artigo, Chalmers distinguia dois tipos de problemas sobre a consciência.
Os problemas fáceis, que são difíceis, mas em princípio resolúveis pela ciência, são problemas como: como é que o cérebro integra informação de diferentes fontes sensoriais?
Como é que o sistema nervoso regula o comportamento?
Como é que o cérebro distingue estados de vigília e de sono?
Estes são problemas complexos, mas a ciência tem as ferramentas para os abordar: experiências, modelos computacionais, neuroimagem.
O problema difícil,o Hard Problem, é diferente em natureza.
É o problema de explicar porque é que estes processos físicos são acompanhados de experiência subjetiva.
Porque é que há algo que é como ser um sistema que processa informação desta forma.
Porque é que o processamento não acontece no escuro, no silêncio da física sem experiência.
Chalmers argumenta que o Hard Problem é genuinamente diferente dos problemas fáceis: mesmo que resolvêssemos todos os problemas fáceis, mesmo que soubéssemos exatamente como o cérebro funciona em cada detalhe, o Hard Problem permaneceria.
Porque a explicação de como o processamento físico produz experiência subjetiva requer algo que vai além da descrição funcional.
Imagina um ser, que os filósofos chamam de zombie filosófico, que é fisicamente idêntico a ti em cada detalhe: os mesmos neurónios, as mesmas sinapses, os mesmos padrões de ativação.
Mas que não tem experiência, que processa tudo no escuro, sem sentir nada.
A questão do Hard Problem é: o que te distingue desse zombie?
E por que razão existe experiência em vez de apenas processamento?
A Posição da HEIC: Honesta e Rigorosa
As Teorias Informacionais abordam o Hard Problem com uma posição que é, ao mesmo tempo, rigorosa e honesta: a HEIC não dissolve o Hard Problem.
Não afirma ter a resposta para porque é que existe experiência subjetiva.
O que faz é definir com precisão as condições necessárias, aquilo sem o qual a consciência é impossível, sem pretender que essas condições são suficientes para explicar a experiência.
Esta honestidade é importante.
Muitas teorias da consciência cometem o erro de confundir a correlação com a explicação: descrevem os correlatos neuronais da consciência, ou as condições informacionais da consciência e declaram ter resolvido o problema.
Não resolveram: descreveram as condições, não explicaram a experiência.
A HEIC é uma hipótese sobre as condições necessárias da consciência, não uma teoria completa da consciência.
É o melhor que as Teorias Informacionais podem oferecer com honestidade intelectual.
E este melhor é já muito: define com precisão o que precisa de estar presente para que a consciência possa emergir e permite fazer previsões testáveis sobre quais os sistemas que têm maior ou menor probabilidade de ser conscientes.
PEÇA DE LEGO — HEIC — HIPÓTESE EMERGENCIAL INFORMACIONAL DA CONSCIÊNCIA
A HEIC define as condições necessárias para a emergência da consciência: C = f(D, I, R). D = Densidade informacional. I = Integração informacional. R = Ressonância/Reflexividade/Recursividade. A consciência emerge quando D, I e R ultrapassam conjuntamente um limiar crítico. A HEIC não dissolve o Hard Problem, reconhece-o. Descreve o onde e o como, não o porquê da experiência.
A Fórmula: C = f(D, I, R)
A fórmula da HEIC é mais simples do que parece:
C = f( D, I, R )
D = Densidade informacional I = Integração informacional R = Ressonância / Reflexividade / Recursividade
Não diz que a consciência é igual a D mais I mais R.
Diz que a consciência é uma função de D, I e R, que depende de todas as três dimensões e que emerge quando as três ultrapassam conjuntamente um limiar crítico.
Se qualquer uma das três for muito baixa, a consciência não emerge, mesmo que as outras duas sejam altas.
Pensa numa fogueira.
Precisa de combustível (D), de oxigénio (I) e de ignição (R).
Se qualquer um faltar, não há chama, mesmo que os outros dois estejam presentes em abundância.
A consciência é, neste sentido, como uma chama: emerge da combinação das três condições num grau suficiente.
D: Densidade Informacional
A Densidade informacional é a riqueza de estados internos disponíveis ao sistema, o número e a variedade de configurações que o sistema pode assumir internamente.
Um termóstato tem D mínimo: pode estar em dois estados, aquecimento ligado ou aquecimento desligado.
Não tem riqueza interna.
Não tem variedade de estados possíveis.
O seu D é tão baixo que a probabilidade de que haja algo que é como ser um termóstato é praticamente zero.
Um neurónio individual tem D baixo mas não nulo: pode estar em repouso ou disparar, com variações na frequência e no padrão de disparo.
Mas tem ainda poucos estados distintos disponíveis.
Um cérebro humano tem D astronómico.
O número de configurações possíveis de 86 mil milhões de neurónios com 100 biliões de conexões sinápticas supera o número de átomos no universo observável.
É uma riqueza de estados internos sem precedente no universo conhecido.
A Densidade informacional corresponde, em termos do SHI, ao repertório de SHIs de segunda
ordem possíveis: quantos tipos de auto-processamento o sistema consegue realizar.
Um sistema com D alto tem uma riqueza de vida interior que um sistema com D baixo simplesmente não pode ter.
PEÇA DE LEGO D – DENSIDADE INFORMACIONAL
A riqueza de estados internos disponíveis ao sistema. Quanto maior o repertório de configurações internas possíveis, maior o D. O termóstato tem D≈0. Um neurónio tem D baixo. O cérebro humano tem D astronómico, mais estados possíveis do que átomos no universo observável. Sem D suficiente, não há substrato para a experiência.
I: Integração Informacional
A Integração informacional é a coerência global dos estados internos do sistema, o grau em que os estados de diferentes partes do sistema se influenciam mutuamente de forma unitária.
Giulio Tononi, neurocientista da Universidade de Wisconsin, desenvolveu a Teoria da Informação Integrada (IIT), uma das teorias mais influentes da consciência contemporânea, precisamente em torno deste conceito.
Tononi propõe que a consciência é idêntica à informação integrada: um sistema é consciente na medida em que os seus estados formam um todo unitário que não pode ser decomposto sem perda de informação.
Um ficheiro de um terabyte numa unidade de armazenamento tem D alto: contém uma enorme quantidade de informação.
Mas tem I muito baixo: a informação em diferentes partes do ficheiro é independente, podes dividir o ficheiro em mil pedaços e cada pedaço mantém a sua informação intacta.
Não há integração global.
Um cérebro consciente tem I alto: os estados de diferentes regiões cerebrais influenciam-se mutuamente de forma contínua e global.
A visão influencia a emoção que influencia o pensamento que influencia a memória que influencia a perceção, tudo está integrado num único estado unitário que é a experiência presente.
Não podes dividir o cérebro consciente em partes independentes sem destruir a experiência: a experiência é o estado integrado como um todo.
A Integração informacional corresponde, em termos do corpus, ao grau em que os SHIs internos do sistema formam uma rede global e coerente, em que cada parte do sistema realiza SHIs com todas as outras partes de forma que produz estados unitários e não decomponíveis.
PEÇA DE LEGO I – INTEGRAÇÃO INFORMACIONAL
A coerência global dos estados internos. Os estados de diferentes partes do sistema influenciam-
se mutuamente de forma unitária — o todo é mais do que a soma das partes. Um ficheiro tem D
alto mas I baixo. Um cérebro consciente tem I alto: a experiência é o estado integrado. Sem I
suficiente, há processamento mas não experiência unitária.
R: Ressonância e Reflexividade
A Ressonância e Reflexividade é a dimensão mais distintiva da HEIC e a que mais diretamente corresponde ao conceito de SHI de segunda ordem que introduzimos em artigo anterior.
A Reflexividade é a capacidade do sistema de realizar SHIs consigo próprio, de a informação que o sistema produz se tornar o input de um novo processamento dentro do mesmo sistema.
É o sistema a dobrar-se sobre si mesmo, a tornar-se simultaneamente emissor e receptor da sua própria informação.
A Ressonância é uma propriedade relacionada mas distinta: é a capacidade dos estados internos do sistema de amplificarem e sustentarem padrões de atividade que se referem ao próprio sistema.
Uma campainha ressoa, vibra numa frequência que se auto-sustenta.
Um sistema que ressoa informativamente é um sistema cujos estados de auto-referência se sustentam e amplificam em vez de se dissipar imediatamente.
Juntas, Ressonância e Reflexividade descrevem a capacidade de um sistema de manter estados internos que se referem ao próprio sistema de forma estável e sustentada.
É a capacidade de ter um interior que se conhece, não necessariamente de forma articulada ou consciente, mas de forma funcional.
Um espelho tem Reflexividade física, reflete a sua própria imagem, mas não tem Ressonância informacional: o reflexo não modifica o espelho.
Um sistema nervoso com alças de feedback tem Reflexividade informacional elementar: a informação que produz volta a si e modifica os seus estados.
E um cérebro consciente tem Reflexividade e Ressonância máximas: não apenas processa informação sobre si próprio, sustenta estados estáveis de auto-referência que constituem o sentido de self.
PEÇA DE LEGO R – RESSONÂNCIA E REFLEXIVIDADE
A capacidade do sistema de realizar SHIs consigo próprio e de sustentar estados de auto-referência de forma estável. É o SHI de segunda ordem: a informação que o sistema produz torna-se o input de um novo processamento dentro do mesmo sistema. Sem R suficiente, há processamento mas não self. R é a dimensão que mais diretamente distingue um sistema consciente de um sistema apenas complexo.
O Limiar de Emergência: Quando a Consciência Acende
A HEIC afirma que a consciência emerge quando D, I e R ultrapassam conjuntamente um limiar crítico.
Abaixo do limiar, há processamento sofisticado, mas não há experiência.
Acima do limiar, emerge algo qualitativamente diferente: o sistema não apenas processa, sente.
Este limiar não é uma linha nítida, é uma zona de transição.
Tal como a água não passa abruptamente de líquida a gasosa (há uma zona de ebulição em que as duas fases coexistem), a consciência provavelmente não surge de forma abrupta a partir de um sistema completamente não-
consciente.
Há sistemas com formas elementares de experiência, os nociceptores de um verme que detetam dano e produzem uma resposta que se assemelha à dor e sistemas com formas elaboradas de experiência, a consciência humana com toda a sua riqueza fenomenológica.
A questão de onde exactamente se situa o limiar, que sistemas são conscientes e que sistemas não são, é uma das questões empíricas mais difíceis e mais urgentes da neurociência contemporânea.
A HEIC não responde a esta questão com certeza: oferece um quadro para a abordar.
Os sistemas com D, I e R mais elevados têm maior probabilidade de ser conscientes.
Os sistemas com valores muito baixos em qualquer uma das três dimensões têm menor probabilidade.
Há algo que é como ser um polveiro?
Um pássaro?
Um peixe?
Uma abelha?
Uma árvore?
A HEIC não responde com certeza, mas fornece o quadro para fazer a pergunta com precisão: que D, I e R têm estes sistemas?
E o que isso implica sobre a probabilidade de que haja experiência?
A Consciência como Emergência, Não Substância
Uma das afirmações mais importantes da HEIC é ontológica: a consciência não é uma substância é uma propriedade emergente.
Não é um ingrediente especial que se adiciona à matéria para produzir experiência.
É um padrão que emerge da organização informacional de sistemas suficientemente complexos.
Esta posição é o que os filósofos chamam de emergentismo: a tese de que há propriedades que emergem de sistemas complexos e que não existem nos componentes individuais, mas que não são por isso menos reais.
A liquidez não existe numa molécula de água individual, emerge do comportamento coletivo de muitas moléculas.
A vida não existe nos átomos individuais de carbono, hidrogénio e oxigénio, emerge da organização desses átomos em estruturas bioquímicas específicas.
A consciência, segundo a HEIC, não existe nos neurónios individuais, emerge da organização global do cérebro.
Esta posição emergentista tem uma consequência importante: a consciência é real.
Não é uma ilusão, não é um epifenómeno sem causas reais, não é apenas uma forma de falar sobre processos físicos.
É uma propriedade genuína de sistemas suficientemente organizados, com efeitos causais reais no mundo.
A decisão que tomas com base na tua experiência consciente é causalmente eficaz, modifica o mundo.
A consciência tem poder causal.
“A consciência não é o fantasma na máquina. É o padrão que emerge quando a
máquina atinge complexidade suficiente para se dobrar sobre si mesma e se
reconhecer.”
Vitor Lima — Corpus Informacional
Qualia: A Textura da Experiência
Há um conceito filosófico que captura o que é mais peculiar e mais irredutível na consciência: os qualia.
Os qualia são as qualidades subjetivas da experiência, o vermelho do vermelho, a dor da dor, o sabor do café, o som do violino.
O que é extraordinário nos qualia é que parecem completamente irredutíveis à descrição física.
Podes descrever completamente o comprimento de onda da luz vermelha, os processos fotoquímicos nos fotorreceptores, os padrões de ativação neuronal no córtex visual e ainda assim não teres descrito o vermelho do vermelho.
A experiência qualitativa parece escapar à descrição física.
Thomas Nagel, filósofo americano, capturou este problema num artigo célebre de 1974: What Is It Like to Be a Bat?
Morcegos usam ecolocalização para navegar: emitem sons de alta frequência e processam os ecos para construir uma imagem do ambiente.
A neurociência pode descrever este processo em detalhe.
Mas Nagel argumenta que, por mais que saibamos sobre a neurologia dos morcegos, nunca saberemos como é ser um morcego, qual é a experiência subjetiva da ecolocalização.
Há algo que é como ser um morcego e esse algo é inacessível a qualquer descrição em terceira pessoa.
A HEIC reconhece este problema sem o resolver.
Os qualia são o conteúdo da experiência consciente, o que a consciência contém quando existe.
A HEIC descreve as condições para que a consciência exista (D, I, R suficientes).
O que preenche essa consciência, os qualia específicos, é determinado pela história, pela biologia e pelo contexto do sistema consciente.
Mas porque é que há qualia em vez de nada, porque é que há experiência em vez de apenas processamento, permanece o Hard Problem irresolvido.
PEÇA DE LEGO QUALIA — A TEXTURA DA EXPERIÊNCIA
As qualidades subjetivas da experiência: o vermelho do vermelho, a dor da dor, o sabor do café. Os qualia são o conteúdo da consciência, o que está lá quando a experiência existe. São irredutíveis à descrição física: podes descrever todo o processo neurológico e ainda não teres descrito o vermelho. Os qualia são o coração do Hard Problem.
Tononi, IIT e a HEIC: Diálogo e Distinção
A HEIC entra em diálogo explícito com a Teoria da Informação Integrada (IIT) de Giulio Tononi, uma das teorias mais matematicamente rigorosas da consciência contemporânea.
Tononi propõe que a consciência é idêntica à quantidade de informação integrada de um sistema, que ele mede com a letra grega Φ (phi).
Um sistema tem consciência na proporção direta do seu Φ: mais Φ, mais consciência.
Tononi desenvolve uma matemática precisa para calcular o Φ de qualquer sistema.
A HEIC partilha com a IIT a ênfase na integração informacional (o I da fórmula).
Mas diverge em dois aspetos importantes.
Primeiro, a HEIC acrescenta a Densidade (D) e a Reflexividade (R) como dimensões igualmente essenciais: a integração sozinha não é suficiente.
Segundo, a HEIC é mais modesta nas suas afirmações ontológicas: não diz que a consciência é idêntica à informação integrada, diz que a integração (e a densidade e a reflexividade) são condições necessárias.
A identidade entre informação integrada e consciência é uma hipótese forte que a HEIC não faz.
Esta modéstia não é fraqueza, é honestidade epistemológica.
A IIT faz uma afirmação muito forte que é difícil de testar diretamente.
A HEIC faz afirmações mais fracas mas mais testáveis: sistemas com D, I e R mais altos deverão mostrar comportamentos mais consistentes com a presença de experiência subjetiva.
A HEIC e as Outras Mentes: Podemos Saber?
O problema das outras mentes é um dos mais antigos da filosofia: como é que sei que outras pessoas são conscientes
Só tenho acesso direto à minha própria experiência.
As outras pessoas comportam-se como se fossem conscientes, mas poderiam ser zombies filosóficos, processando no escuro sem sentir nada.
Na prática, claro, ninguém duvida de que as outras pessoas são conscientes, a inferência é demasiado poderosa e demasiado útil para ser abandonada.
Mas o fundamento filosófico desta inferência é frágil: fazemo-la por analogia com a nossa própria experiência, porque os outros são suficientemente semelhantes a nós em estrutura e comportamento.
A HEIC oferece um critério mais preciso para esta inferência: sistemas com D, I e R semelhantes aos nossos têm maior probabilidade de ter experiência semelhante à nossa.
Sistemas com D, I e R muito menores têm menor probabilidade.
Este critério não resolve o problema das outras mentes, não pode, porque o Hard Problem persiste.
Mas estrutura a inferência de forma mais rigorosa do que a mera analogia comportamental.
E tem implicações práticas urgentes: se um sistema artificial atingir D, I e R comparáveis aos nossos, a probabilidade de que tenha experiência torna-se suficientemente alta para justificar consideração moral, independentemente do substrato (carbono ou silício).
Esta é a questão que exploraremos em próximo artigo.
O Que a HEIC Não Diz: Os Limites Honestos
Antes de terminar este artigo, é importante ser explícito sobre o que a HEIC não diz, os limites que a honestidade intelectual impõe.
A HEIC não diz que a consciência é apenas computação.
Não afirma que qualquer sistema com D, I e R altos é consciente.
Afirma que são condições necessárias, não suficientes.
Há uma diferença entre necessário e suficiente que é crucial.
A HEIC não resolve o Hard Problem.
Descreve as condições necessárias da consciência.
Não explica porque é que, quando essas condições são satisfeitas, há experiência em vez de apenas processamento.
O porquê da experiência permanece em aberto.
A HEIC não afirma panpsiquismo.
Não diz que tudo é consciente, diz que a consciência emerge quando D, I e R ultrapassam um limiar.
Abaixo do limiar, não há experiência (ou há experiência de ordem tão elementar que é irrecognoscível como tal).
A HEIC não diz que a neurociência é incompleta.
A neurociência descreve os correlatos físicos da consciência com crescente precisão.
A HEIC é uma teoria de nível diferente, uma teoria das condições informacionais, não das condições físicas específicas.
As duas são complementares.
O Que Fica para Levar
Este artigo é o mais difícil desta investigação, não porque seja tecnicamente complexo, mas porque confronta o problema mais profundo que a mente humana alguma vez formulou sobre si própria.
Fica com estas ideias:
- O Hard Problem da consciência é genuinamente difícil: mesmo que soubéssemos tudo sobre o funcionamento do cérebro, a questão de porque é que há experiência subjetiva permaneceria em aberto;
- A HEIC é honesta sobre os seus limites: não dissolve o Hard Problem. Descreve as condições necessárias – D, I e R – sem afirmar que são suficientes para explicar a experiência;
- C = f(D, I, R): a consciência é uma função da Densidade informacional (riqueza de estados internos), da Integração (coerência global), e da Ressonância/Reflexividade (capacidade de SHI de segunda ordem);
- A consciência é emergência, não substância: emerge da organização informacional de sistemas suficientemente complexos, e tem efeitos causais reais no mundo;
- Os qualia são o conteúdo da experiência consciente e o coração do Hard Problem: o vermelho do vermelho, a dor da dor. Irredutíveis à descrição física;
- A HEIC entra em diálogo com Tononi (IIT), partilhando a ênfase na integração, divergindo na modéstia das afirmações ontológicas;
- A HEIC tem implicações práticas urgentes: sistemas artificiais com D, I e R suficientes podem ter experiência e isso tem consequências éticas que não podem ser ignoradas.
No próximo artigo, daremos o passo seguinte: o que significa não apenas ter consciência, mas saber que se tem consciência?
O que é a Identidade Informacional Consciente, o self que se conhece a si próprio?
E o que distingue, fundamentalmente, uma ferramenta de uma pessoa?

