Corpus Informacional: A evolução é cega? Um diálogo entre a ciência evolutiva e a perspetiva do Corpus Informacional
Uma das perguntas mais antigas e persistentes do pensamento humano é esta: a evolução sabe para onde vai?
Ou, em termos mais rigorosos: existe alguma direção intrínseca no processo evolutivo, ou estamos perante uma sucessão de acontecimentos moldados pelas leis naturais, pelo acaso e pelas circunstâncias ambientais?
A resposta dominante na biologia contemporânea é clara: a evolução não possui um propósito consciente nem um plano pré-definido.
A seleção natural não vê o futuro, não planeia consequências e não persegue um objetivo.
É neste sentido que Richard Dawkins a descreveu como um “relojoeiro cego” [Dawkins, 1986].
O Corpus Informacional não pretende negar este resultado.
Propõe, antes, uma questão diferente: a ausência de intenção implica necessariamente ausência de estrutura, de restrição ou de tendência?
A resposta proposta é negativa.
A evolução pode ser cega quanto à finalidade e, ainda assim, não ser indiferente às propriedades estruturais do espaço informacional em que ocorre.
O que significa dizer que a evolução é cega?
Quando os biólogos afirmam que a evolução é cega, não querem dizer que os organismos mudam aleatoriamente em todos os aspetos.
O conceito é mais preciso.
A teoria evolutiva moderna sustenta que:
As mutações surgem sem finalidade pré-definida.
- A variação genética é filtrada pela interação entre organismos e ambiente;
- A seleção natural favorece, em cada contexto, as variantes que deixam mais descendentes ou sobrevivem melhor;
- A deriva genética pode alterar frequências alélicas por acaso, sobretudo em populações pequenas;
- Ao longo de muitas gerações, estes processos produzem adaptação, diversificação e, por vezes, especiação.
Neste modelo, não existe um plano global.
Os olhos não surgiram porque a natureza “quis” produzir visão.
As asas não apareceram porque a evolução pretendia criar o voo.
Os cérebros humanos não existem porque o universo desejasse gerar inteligência.
São resultados históricos, emergentes de processos locais: variação, hereditariedade, seleção, deriva, restrições físicas e mudanças ambientais.
A evolução pode produzir complexidade, mas não porque esteja orientada para ela.
Pode produzir inteligência, mas não porque procure inteligência.
Pode produzir consciência, mas não porque possua consciência de si própria.
A metáfora de Dawkins permanece útil: a seleção natural constrói estruturas extraordinariamente sofisticadas sem intenção, previsão ou propósito [Dawkins, 1986].
Estrutura não é plano
Aqui é necessário fazer uma distinção fundamental.
Dizer que a evolução não tem um plano não equivale a dizer que tudo é possível em igual medida.
A evolução ocorre dentro de um espaço de possibilidades fortemente estruturado por restrições físicas, químicas, genéticas, desenvolvimentais e ecológicas [Arnold, 2014; Brakefield, 2006].
Uma restrição evolutiva é precisamente um fator que limita, canaliza ou enviesa o curso e o resultado da evolução adaptativa.
Estas restrições podem resultar de leis físicas, da arquitetura genética, das vias de desenvolvimento, de compromissos entre funções ou da história prévia de uma linhagem [Arnold, 2014; Brakefield, 2006; Wagner, 2011].
Por exemplo:
- Um animal terrestre de grande dimensão não pode desenvolver asas sem enfrentar limites de massa, estrutura óssea, metabolismo e mecânica de voo;
- Um organismo não pode produzir qualquer fenótipo apenas porque seria vantajoso: o fenótipo depende do que o sistema genético e desenvolvimental consegue gerar [Brakefield, 2006];
- Certas soluções biológicas repetem-se porque há caminhos físicos e químicos mais acessíveis do que outros.
Portanto, a questão não é se existe ou não estrutura.
A biologia evolutiva já reconhece que existe [Arnold, 2014; Wagner, 2011].
A questão é se essas restrições constituem apenas limites locais, ou se revelam tendências mais profundas na organização da realidade.
É aqui que entra a perspetiva do Corpus Informacional.
O paradoxo aparente da complexidade
A Terra começou com química relativamente simples.
Posteriormente surgiram moléculas capazes de algum tipo de replicação, células, organismos multicelulares, sistemas nervosos, cognição complexa e, pelo menos num caso conhecido, seres capazes de investigar o próprio universo.
Esta sequência pode parecer uma progressão inevitável.
Mas não o é.
A biologia evolutiva não sustenta que toda a vida caminha necessariamente para maior complexidade.
Muitas linhagens permaneceram microbianas.
Outras simplificaram-se.
As bactérias continuam entre os organismos mais bem-sucedidos do planeta, em número, diversidade, distribuição e persistência ecológica.
Além disso, parte da aparente progressão resulta de um efeito estatístico: se a complexidade pode variar ao longo do tempo, o valor máximo observado tende a aumentar, mesmo sem um impulso universal no sentido da complexificação.
McShea e outros autores argumentam que a evidência para uma direção geral da complexidade é limitada e que o aumento do máximo não equivale a uma tendência média ou universal [McShea, 1996; McShea & Brandon, 2010].
Estudos sobre a evolução da complexidade concluem que a evolução orienta mudanças de complexidade, mas não numa única direção [McShea, 1996; McShea & Brandon, 2010].
Portanto, a formulação mais prudente é esta:
Em certas linhagens e sob certas condições, a complexidade máxima aumentou. Mas isso não demonstra que a evolução possua uma direção universal rumo à complexidade.
Ainda assim, permanece uma questão legítima: como é que um universo que começou com estruturas físicas relativamente simples pôde produzir sistemas capazes de armazenar, processar, transmitir e reinterpretar informação?
A perspetiva do Corpus Informacional
O Corpus Informacional não rejeita a evolução darwiniana.
Mutação, seleção natural, deriva genética, adaptação, especiação, extinção e restrições desenvolvimentais continuam a fazer parte da explicação.
O que muda é a interpretação do enquadramento em que esses processos ocorrem.
Segundo o Corpus Informacional, a informação não deve ser entendida apenas como um conceito técnico abstrato ou um conjunto de dados digitais.
Na linha das formulações físicas e ontológicas da informação (como a teoria da informação de Shannon ou o realismo estrutural informacional), a informação é aqui definida rigorosamente como a medida de organização e restrição de estados possíveis de um sistema physical.
Nesta perspetiva:
- A matéria é uma forma estável de organização e restrição informacional;
- A energia é a dinâmica de transformação dessa organização informacional;
- As leis naturais funcionam como restrições e regularidades fundamentais do processamento informacional do universo;
- Os organismos são sistemas informacionais complexos que mantêm, reproduzem e reorganizam padrões ao longo do tempo;
- A evolução é um processo de transformação e refinamento da organização informacional da vida.
Isto não significa que “tudo seja informação” numa aceção vaga.
Significa que informação, estrutura, causalidade e organização não são fenómenos separados, mas aspetos interdependentes da mesma realidade.
A questão central passa então a ser: a informação possui apenas restrições, ou possui também afinidades estruturais que favorecem certos tipos de organização?
Cegueira sem indiferença
A divergência essencial pode ser formulada assim.
A biologia evolutiva afirma:
A evolução não possui direção intrínseca demonstrada nem um objetivo consciente.
O Corpus Informacional propõe:
A evolução não é guiada por uma consciência externa, mas pode possuir tendências estruturais decorrentes das propriedades da informação e das restrições do espaço informacional.
A diferença é importante.
Não se trata de defender uma teleologia tradicional, nem de afirmar que existe um agente sobrenatural a conduzir a história da vida.
Também não se trata de imaginar um plano detalhado para cada espécie.
A analogia do rio é útil.
A água não tem consciência nem intenção.
No entanto, o seu percurso não é arbitrário: é condicionado pela gravidade, pela topografia, pela viscosidade, pela erosão e pelas propriedades dos materiais.
O rio não sabe para onde vai, mas o seu trajeto não é indiferente à estrutura do terreno.
Da mesma forma, sistemas informacionais poderiam apresentar tendências emergentes para:
- aumentar a capacidade de processamento;
- integrar informação previamente dispersa;
- formar padrões funcionais mais estáveis;
- aumentar a capacidade adaptativa;
- desenvolver autorreferência;
- gerar modelos internos do ambiente e de si próprios.
Estas tendências não seriam destinos inevitáveis.
Seriam inclinações condicionadas: caminhos mais prováveis, mais estáveis ou mais persistentes dentro de determinado espaço de possibilidades.
A consciência humana não seria, nesta perspetiva, um destino inevitável.
Mas também não seria um acontecimento totalmente desconectado da arquitetura informacional do universo.
O exemplo da origem da vida
A origem da vida é um dos domínios em que esta perspetiva se torna especialmente relevante.
Na visão tradicional, a vida resultou de uma combinação de condições químicas, energéticas e ambientais que permitiu o surgimento de sistemas capazes de se replicar e evoluir.
Esta explicação é perfeitamente compatível com o Corpus Informacional.
A diferença está na interpretação.
O Corpus Informacional sugere que a vida não precisa de ser entendida como um acidente estatístico isolado.
Poderá representar uma consequência particularmente estável de processos de auto-organização informacional, desde que existam condições adequadas.
Isso não significa que a emergência da vida seja trivial ou inevitável.
Continua a ser um problema científico em aberto.
Mas a questão deixa de ser apenas: “que reação química produziu a primeira célula?”
Passa a ser também: que condições favorecem a formação de sistemas capazes de manter, copiar, corrigir e transmitir informação?
Entre os fatores provavelmente relevantes estão:
- ciclos autocatalíticos;
- compartimentação;
- fontes de energia;
- redundância informacional;
- mecanismos de correção de erros;
- hereditariedade;
- seleção entre variantes moleculares;
- ambientes que permitam a persistência diferencial de padrões.
Nesta leitura, a vida não seria apenas uma substância especial.
Seria um tipo de organização informacional capaz de se manter contra a degradação entrópica, reproduzir-se e explorar o ambiente.
Tal como os cristais surgem em certas condições porque refletem padrões de organização da matéria, os sistemas vivos poderiam surgir em certas condições porque representam formas particularmente estáveis de organização informacional.
A diferença é que a vida não só exibe um padrão: mantém-no, replica-o e modifica-o ao longo do tempo.
E a consciência?
A consciência torna a questão mais difícil.
Na perspetiva científica dominante, a consciência emerge de processos cerebrais suficientemente complexos.
Cérebros integram informação sensorial, mantêm modelos do corpo e do ambiente, regulam comportamento e produzem relatos sobre estados internos.
Mas permanece o chamado “problema difícil da consciência” (Hard Problem of Consciousness): por que razão existe experiência subjetiva?
Por que razão o processamento de informação não é só processamento, mas é também vivido?
O Corpus Informacional não pretende resolver este problema por decreto.
Deve reconhecer o seu limite.
A proposta é a seguinte: a consciência poderá estar associada a sistemas capazes de integrar informação, manter modelos internos e referir-se a si próprios.
Nesse caso, a consciência não seria um acidente totalmente desconectado da evolução, mas uma possibilidade favorecida por certas configurações informacionais.
Contudo, isto explica, na melhor das hipóteses, as condições funcionais associadas à consciência, não demonstra, por si só, porque é que essas condições produzem experiência subjetiva.
É importante não confundir esta proposta com a afirmação de que qualquer integração de informação gera consciência.
Teorias como a Teoria da Informação Integrada (IIT) tentam relacionar consciência e integração informacional [Tononi et al., 2016], mas continuam a ser objeto de críticas substanciais quanto à sua testabilidade, ao significado da medida usada (Φ) e à sua capacidade para resolver o problema difícil [Aaronson, 2014; Cerullo, 2015; Doerig et al., 2019; Fleming, 2023].
O Corpus Informacional deve, portanto, formular a hipótese com prudência:
A consciência pode ser uma expressão de certos tipos de organização informacional, mas a relação entre integração informacional e experiência subjetiva continua a exigir explicação e investigação empírica.
Uma analogia: a biblioteca estruturada
Imaginemos uma biblioteca infinita.
Na visão mais estrita, os livros são escritos por combinações aleatórias de letras.
A maioria não tem sentido.
Alguns, por acaso, contêm sequências coerentes.
A seleção retém os que se revelam úteis ou persistentes.
O Corpus Informacional não nega este processo.
Acrescenta apenas uma hipótese: a biblioteca não é neutra.
Nem todas as combinações são igualmente estáveis.
Nem todas as estruturas resistem igualmente ao tempo.
Nem todas as formas de organização têm a mesma capacidade de se reproduzir, corrigir erros ou interagir com o ambiente.
Haveria liberdade local: muitas mutações, muitos caminhos, muitos resultados possíveis, mas também haveria restrições globais: leis físicas, propriedades químicas, limites de estabilidade, exigências de replicação e pressões seletivas.
A evolução seria, então, como um processo de escrita sem autor consciente, mas dentro de uma biblioteca cuja arquitetura favorece certos tipos de texto.
O ponto de encontro
Estas duas perspetivas não são tão incompatíveis como parece.
A biologia demonstra de forma robusta que não há evidência de um planeamento consciente da evolução.
O Corpus Informacional não precisa de negar esse facto.
Pode argumentar que ausência de planeamento não equivale a ausência de estrutura.
Uma tempestade não é planeada, mas não é puro caos.
Uma galáxia não foi desenhada, mas exibe padrões.
Um rio não conhece o mar, mas o seu percurso é moldado pela topografia.
A questão pode assim ser reformulada:
Talvez a evolução seja cega no sentido de não possuir intenção, mas não seja cega no sentido de ser completamente indiferente às propriedades estruturais da informação.
Esta formulation é mais precisa do que opor “ciência sem estrutura” a “Corpus com estrutura”.
A biologia já reconhece restrições evolutivas; a questão é se essas restrições revelam apenas contingência histórica local ou se apontam para princípios mais gerais de organização [Arnold, 2014; Brakefield, 2006; Wagner, 2011].
O que tornaria a hipótese científica?
Para que o Corpus Informacional seja mais do que uma metáfora filosófica, é necessário especificar como poderia ser testado de forma falsificável.
Uma hipótese informacional sobre a evolução ganharia rigor se pudesse responder a estas perguntas:
- O que conta exatamente como “informação” neste quadro?
- Qual é a diferença entre informação, ordem, complexidade e organização funcional?
- Que sistemas devem ser considerados informacionais e segundo que critérios?
- Que fenómenos o modelo explica melhor do que a biologia evolutiva padrão?
- Que previsões distintas permite formular?
- Como se mede uma “tendência informacional”?
- Que observações poderiam falsear a hipótese?
Algumas possíveis linhas de investigação seriam:
- Comparar a probabilidade de emergência de certas estruturas biológicas com a estrutura do espaço de sequências genéticas possíveis;
- Estudar se existem caminhos evolutivos repetidamente mais acessíveis do que outros, para além do que seria esperado apenas pela seleção e pela história ambiental;
- Analisar se a robustez, a redundância e a capacidade de correção de erros aumentam de forma sistemática em sistemas que persistem;
- Investigar se a integração de informação, a autorreferência e a modelação interna apresentam correlatos mensuráveis com estados conscientes;
- Formular previsões sobre quais tipos de organização informacional são mais estáveis, replicáveis ou capazes de gerar complexidade funcional.
Sem critérios deste tipo, a proposta permanece filosoficamente sugestiva, com eles, pode tornar-se um programa de investigação.
Reflexão final
A pergunta “a evolução é cega?” revela-se, afinal, uma pergunta sobre a natureza da realidade.
Se a interpretação evolutiva mais estrita estiver correta, a consciência humana é uma consequência extraordinária de processos sem finalidade.
A vida teria produzido seres capazes de compreender o universo sem que o universo tivesse planeado essa compreensão.
Se o Corpus Informacional captar algo essencial, então consciência, complexidade e capacidade de conhecer poderão ser expressões naturais de uma dinâmica informacional mais profunda.
Não porque exista um destino escrito, mas porque certas formas de organização são mais estáveis, mais integradas e mais capazes de persistir.
Talvez a evolução não seja um arqueiro que sabe onde quer acertar.
Mas também talvez não seja alguém a disparar flechas no escuro.
Talvez seja algo intermédio: um processo sem intenção, mas com inclinações; sem destino escrito, mas com possibilidades privilegiada; sem mapa, mas seguindo os contornos invisíveis da própria estrutura informacional do real.
E, nesse caso, a grande questão deixa de ser apenas se a evolução é cega.
Passa a ser se somos capazes de distinguir, na aparente contingência da vida, os padrões que ela efetivamente revela.
Fontes e Referências
Aaronson, S. (2014). Why I Am Not an Integrated Information Theorist (or, The Unfolding Argument). Shtetl-Optimized Blog / PLOS Computational Biology critique.
Arnold, S. J. (2014). Phenotypic constraints and evolution. Oxford Bibliographies / Oxford University Press.
Brakefield, P. M. (2006). Evo-devo and constraints on selection. Trends in Ecology & Evolution, 21(7), 362–368.
Cerullo, M. A. (2015). The Problem with Phi: A Critique of Integrated Information Theory. PLOS Computational Biology, 11(9), e1004286.
Dawkins, R. (1986). The Blind Watchmaker: Why the Evidence of Evolution Reveals a Universe Without Design. W. W. Norton & Company.
Doerig, A., Schurger, A., Hess, K., & Herzog, M. H. (2019). The unfolding argument: Why IIT and other causal structure theories cannot explain consciousness. Neuroscience of Consciousness, 2019(1).
Fleming, S. M. (2023). Integrated information theory of consciousness: A case of mistaken identity. Behavioral and Brain Sciences / Durham Thought Leadership.
McShea, D. W. (1996). Metazoan complexity: Is there a trend? Evolution, 50(2), 477–492.
McShea, D. W., & Brandon, R. N. (2010). Biology’s First Law: The Tendency for Diversity and Complexity to Increase in Evolutionary Systems. University of Chicago Press.
Tononi, G., Boly, M., Massimini, M., & Koch, C. (2016). Integrated information theory: from consciousness to its physical substrate. Nature Reviews Neuroscience, 17(7), 450–461.
Wagner, A. (2011). The Origins of Evolutionary Innovations: A Theory of Genotype Networks. Oxford University Press.
Nota do Autor
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor, e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

