Mumificação e conservação artística como regimes distintos de preservação e atualização informacional
Em comentário ao artigo anterior sobre a mumificação, foi observada uma assimetria sugestiva: as obras de arte também envelhecem, deterioram-se e perdem legibilidade, mas dispõem de práticas de conservação e restauro capazes de lhes devolver condições de apresentação; já no caso do organismo humano não existe um “restaurador” equivalente capaz de reabrir o processo vital depois da morte.
A imagem do “demiurgo” é expressiva, mas deve ser entendida aqui como uma metáfora para um agente externo capaz de reconstruir condições funcionais.
Não se trata de uma entidade criadora em sentido metafísico, mas de uma intervenção técnica, interpretativa e material.
A questão central deste artigo não é saber se a arte é mais restaurável do que o corpo por dispormos de melhores técnicas.
A hipótese é mais forte: a diferença resulta de dois regimes distintos de continuidade informacional.
Numa obra de arte, a experiência estética pode ser renovada quando se recuperam condições materiais e semióticas suficientes para novos encontros entre objeto e observador.
Num organismo, a actividade vital depende da continuidade de uma organização dinâmica auto-mantenedora, que não é reconstituída apenas pela preservação dos seus componentes materiais.
A tese pode ser formulada assim:
A diferença entre restaurar uma obra e reativar um organismo não é principalmente tecnológica; resulta da diferença entre renovar uma relação e reconstituir a continuidade de um processo dinâmico.
2. Enquadramento conceptual
O artigo anterior propôs o conceito de Vestígio Estrutural Congelado (VEC) para descrever o que permanece de um organismo depois do fecho do Bloco Informacionalmente Dinâmico (BID).
O VEC conserva uma estrutura física ou organizacional, o EP ou GEP, mas já não participa no processo ativo que a mantinha em funcionamento.
Para tornar a análise mais clara, distinguem-se aqui cinco níveis:
| Conceito | Função |
|---|---|
| EP | Estrutura Preservada: suporte material ou organizacional |
| EA | Actualização Activa: processo ou função actualmente gerada |
| AEA | Actualização informacional associada a um acontecimento ou estado particular |
| BID | Bloco Informacionalmente Dinâmico: organização processual que sustenta a actividade |
| VEC | Vestígio Estrutural Congelado: estrutura preservada depois do encerramento do BID |
A EA não deve ser entendida sempre no mesmo sentido.
Num organismo, pode referir-se a atividade metabólica, regulação, perceção ou consciência.
Numa obra de arte, refere-se sobretudo à experiência estética, à interpretação e à capacidade de desencadear respostas no observador.
Estes níveis não são equivalentes, embora possam ser descritos por uma linguagem comum de atualização.
A distinção fundamental é, portanto, entre:
- o suporte que permanece;
- a função que pode ser recuperada;
- a experiência que pode ser novamente produzida;
- a identidade histórica do acontecimento original;
- a continuidade causal do processo que existia antes da degradação.
Restaurar um suporte não implica necessariamente recuperar a função original.
Recuperar uma função também não implica recuperar a experiência histórica original.
E produzir uma nova experiência não equivale a reabrir o processo que produziu uma experiência anterior.
3. Arte, organismo e conservação
Uma pintura degradada apresenta um EP físico constituído, entre outros elementos, por tela, pigmentos, preparação, verniz, camadas de pintura e marcas materiais de execução.
A degradação do verniz, o craquelé, a perda de pigmento ou a acumulação de sujidade podem reduzir a legibilidade da obra.
A experiência estética, porém, não está localizada exclusivamente no suporte.
Ela emerge de uma relação entre:
- a organização material da obra;
- as suas propriedades perceptíveis;
- o conhecimento e as expectativas do observador;
- o contexto histórico e institucional;
- as práticas culturais de interpretação.
A experiência é relacional, mas não é produzida apenas pelo observador.
O objeto fornece restrições, possibilidades, diferenças, relações e possibilidades de ação que orientam a experiência.
Por isso, a formulação mais rigorosa não é que a obra seja um suporte passivo, mas que a sua atualização estética depende de uma relação renovável entre propriedades materiais e atividade interpretativa.
No caso do organismo, a situação é diferente.
Um organismo vivo não é apenas uma estrutura que provoca respostas externas.
Ele realiza uma organização dinâmica capaz de produzir e manter os próprios processos que o constituem.
Esta autonomia não significa isolamento: o organismo depende permanentemente do ambiente, das trocas materiais e energéticas e das interações que sustentam a sua existência.
A autopoiese deve ser entendida como auto-manutenção organizacional, não como interioridade absoluta.
Assim, a diferença não deve ser expressa como:
arte puramente externa versus organismo puramente interno.
A distinção mais rigorosa é:
obra de arte: actualização estética predominantemente dependente de uma relação objecto-observador; organismo: atualização vital dependente da continuidade de uma organização dinâmica auto-mantenedora, constitutivamente acoplada ao ambiente.
4. Análise tripartida
4.1. Compatibiliza
A distinção EP/EA aplica-se heuristicamente às duas séries, desde que não se confunda o tipo de atualização em causa.
Numa pintura, o EP corresponde ao suporte material e à sua organização perceptível.
A EA corresponde à experiência estética e interpretativa produzida na relação entre a obra e o observador.
Os mecanismos descritos por TRD/SHI podem ser utilizados para representar esse encontro como um handshake IPR→IAR: a obra oferece possibilidades informacionais e o observador realiza uma actualização interpretativa.
Num organismo, o EP corresponde a componentes e estruturas biológicas, enquanto a EA inclui processos de auto-manutenção, regulação, percepção e, quando aplicável, consciência.
A comparação é útil, mas não implica que a EA artística e a EA biológica sejam o mesmo tipo de processo.
O GRI – Grau de Reversibilidade Informacional, também pode ser aplicado aos dois casos, mas não deve ser considerado uma consequência direta do ILA.
O GRI mede a capacidade de recuperar uma função ou actualização depois de uma degradação. Essa capacidade depende, pelo menos, de:
- quantidade e qualidade da informação preservada;
- redundância da organização;
- dependência do contexto;
- possibilidade de substituir componentes;
- continuidade do processo;
- existência de um agente capaz de orientar a reconstrução.
O restauro pode elevar o GRI de uma obra degradada quando recupera propriedades materiais relevantes para a experiência.
No entanto, não existe garantia de retorno a um estado original.
A intervenção pode produzir uma configuração nova, que torna novamente possível uma experiência estética, mas também pode alterar a interpretação, a autenticidade percebida ou o valor histórico do objecto.
A conservação artística reconhece precisamente essa pluralidade de valores.
Materialidade, história, idade, aparência, uso e experiência podem entrar em tensão, e a preservação de uma obra não consiste sempre em aproximá-la de um estado inicial imaginado.
Também a Teoria Informacional de Tudo (TIT) permanece pertinente.
Tanto o restauro como a mumificação exigem intervenções activas contra processos de degradação: limpeza, consolidação, controlo climático e reintegração num caso; resinas, dessecação ou outros procedimentos de preservação no outro.
Em ambos os casos, manter uma configuração afastada do equilíbrio exige energia, informação, monitorização e decisão.
O que difere não é a existência de um custo de conservação, mas o tipo de continuidade que a intervenção consegue preservar ou reabrir.
4.2. Rejeita
A análise rejeita, em primeiro lugar, a ideia de que a diferença entre arte e organismo seja apenas uma questão de engenho.
Não se trata simplesmente de a espécie humana ainda não ter encontrado o restaurador suficientemente poderoso.
Uma técnica capaz de reconstruir matéria não reconstruiria automaticamente a organização temporal, causal e auto-mantenedora que constituía o organismo como sistema vivo.
Rejeita-se também a equiparação entre restaurar uma pintura e reactivar a mesma AEA que existia durante a criação da obra.
O restauro pode recuperar condições materiais para novos encontros entre obra e observador, mas não repõe:
- o acto singular do pintor;
- o estado mental do artista;
- a experiência dos primeiros espectadores;
- o contexto histórico original;
- a cadeia causal completa que produziu a obra.
O restauro não ressuscita Vermeer; permite que alguém, hoje, veja uma obra atribuída a Vermeer sob condições materiais e interpretativas renovadas.
Rejeita-se, por fim, a ideia de que a “viveza” perdida por um quadro e a “viveza” perdida por um organismo sejam a mesma coisa em graus diferentes de reparabilidade.
No quadro, a perda afecta sobretudo condições de manifestação, leitura e relação.
No organismo, a perda pode atingir o próprio processo que produzia e mantinha a actividade do sistema.
4.3. Complementa: o Índice de Localização da Actualização
Propõe-se o Índice de Localização da Actualização (ILA) para descrever a distribuição da geração de uma actualização entre a organização do próprio sistema e a relação com agentes ou condições externas.
O ILA não mede directamente a vida, a consciência ou a qualidade estética.
Mede a localização predominante das condições que produzem uma determinada actualização.
Uma definição preliminar seria:
ILA: medida da proporção em que uma actualização depende de processos de auto-organização e auto-manutenção do sistema, por um lado, e de relações renováveis com agentes, contextos ou observadores externos, por outro.
O ILA deve ser tratado como um espectro, não como uma dicotomia.
Poucos sistemas se encontram em extremos puros.
Uma obra pictórica pode apresentar um ILA predominantemente relacional relativamente à sua actualização estética: a experiência acontece na relação entre o objecto e o observador.
Mas essa relação depende de propriedades internas do objecto, como composição, materialidade, escala, cor, textura, estrutura e historial.
Um organismo vivo apresenta elevada autonomia operacional relativamente à sua actualização vital: os processos que o mantêm dependem de uma organização interna circular e auto-mantenedora.
Contudo, essa organização depende de interacções contínuas com o ambiente.
O organismo não é um sistema fechado no sentido físico nem um sistema desligado do exterior.
4.4. Princípios do ILA
Princípio da localização distribuída
A EA de um sistema deve ser analisada como uma distribuição entre organização interna, condições materiais e relações externas.
O ILA não procura classificar sistemas como exclusivamente internos ou externos, mas determinar onde se encontram as condições decisivas para uma actualização específica.
Princípio da renovabilidade condicionada
A possibilidade de renovar uma EA depois da degradação do EP tende a aumentar quando:
- a actualização depende de relações externas repetíveis;
- o suporte conserva as propriedades relevantes;
- existe redundância ou substituibilidade material;
- o contexto necessário pode ser reconstruído;
- não se exige a continuidade do processo original.
Esta relação não é uma lei proporcional simples.
Um ILA elevado pode favorecer a renovação da experiência, mas não garante a recuperação da obra, da autenticidade ou da função.
O GRI resulta da interacção entre ILA, preservação material, contexto, redundância e continuidade organizacional.
Princípio da demiurgia limitada
Um agente externo pode desempenhar uma função restauradora quando a actualização pode ser reconstituída a partir de condições externas recuperáveis.
Esta possibilidade é maior em sistemas cuja função depende de relações renováveis.
Em sistemas cuja actualização depende da continuidade de uma organização auto-mantenedora, restaurar componentes não basta.
A intervenção teria de reconstituir também:
- a organização temporal;
- as relações causais entre componentes;
- os mecanismos de auto-manutenção;
- a regulação;
- o acoplamento funcional ao ambiente;
- a continuidade necessária para atribuir o processo ao mesmo sistema.
A demiurgia técnica é, portanto, limitada: pode reconstruir estruturas, funções e relações, mas não garante a continuidade do processo que anteriormente as integrava.
5. Relação com o VEC
O ILA permite reformular o VEC sem afirmar que a obra de arte é simplesmente um objecto sem dinâmica própria.
Uma obra degradada pode tornar-se um VEC relativamente a uma determinada função histórica ou estética quando já não dispõe das condições materiais necessárias para activar essa função.
O restauro pode então aumentar o GRI do objecto, recuperando parcialmente propriedades que tornam possível uma nova actualização estética.
Mas essa recuperação permanece limitada.
Mesmo quando a intervenção é tecnicamente fiel, ela não reconstitui automaticamente a sequência histórica original.
O objecto restaurado pode ser:
- materialmente mais legível;
- esteticamente mais acessível;
- historicamente mais interpretável;
- mas não idêntico ao acontecimento de experiência que ocorreu no passado.
No caso do organismo, o VEC corresponde a uma estrutura preservada depois do encerramento do BID.
A mumificação pode conservar tecidos, formas ou informação molecular, mas não reabre, por si só, o metabolismo, a regulação ou a actividade auto-mantenedora que constituíam o organismo vivo.
A questão não é apenas se ainda existe matéria suficiente.
É se a matéria preservada conserva a organização dinâmica capaz de produzir a actividade que se pretende recuperar.
6. Contra-exemplos e limites
A teoria deve resistir a casos que complicam a oposição entre arte e organismo.
Uma pintura pode possuir um ILA predominantemente relacional e, ainda assim, ser irreversível se forem destruídos pigmentos essenciais, se a composição se tornar ilegível ou se desaparecer o contexto cultural necessário para a sua interpretação.
Um instrumento musical restaurado pode voltar a produzir sons, mas a recuperação do objecto não equivale à recuperação de uma execução histórica. A sua actualização funcional depende de músico, espaço, técnica, acústica e convenções de escuta.
Um programa informático pode ser restaurado a partir de uma cópia, mas a execução actual não é necessariamente a continuação do processo histórico original. Pode ser uma nova instância funcional baseada numa estrutura informacional preservada.
Também existem organismos com graus variáveis de recuperação após lesão.
A regeneração biológica mostra que certos sistemas podem recuperar actividade a partir de perturbações significativas.
Isto não refuta o modelo; mostra que o GRI biológico depende da preservação parcial da organização dinâmica e não simplesmente da distinção entre vivo e não vivo.
Estes exemplos sugerem que o contraste decisivo não é entre arte e biologia como domínios absolutos.
É entre diferentes regimes de continuidade:
- continuidade material;
- continuidade funcional;
- continuidade organizacional;
- continuidade histórica;
- continuidade fenomenológica.
7. Previsões e operacionalização
O ILA e o GRI só poderão adquirir estatuto científico se forem operacionalizados.
7.1. Estudo sobre obras de arte
Pode-se seleccionar reproduções ou registos de uma mesma obra em diferentes condições de degradação e restauro.
Os participantes poderiam avaliar:
- legibilidade;
- coerência formal;
- intensidade da experiência estética;
- sensação de autenticidade;
- reconhecimento da composição;
- confiança na atribuição histórica.
A fidelidade técnica poderia ser estimada através de avaliação especializada e análise material.
A “viveza estética” poderia ser aproximada por escalas psicométricas, respostas comportamentais e medidas fisiológicas, sem reduzir a experiência a uma única variável.
A previsão seria:
Mantendo aproximadamente constante o contexto de apresentação, intervenções que recuperem propriedades materiais relevantes tendem a aumentar a legibilidade e a experiência estética reportada, embora não necessariamente a percepção de autenticidade histórica.
Esta previsão é compatível com a natureza relacional da actualização estética e não pressupõe que o restauro recupere a experiência original.
7.2. Estudo sobre organismos preservados
No caso de um organismo biologicamente morto, não é possível medir directamente a subjectividade original.
Por isso, a previsão não deve falar de uma “correlação nula” entre ADN antigo e experiência subjectiva.
Deve formular-se em termos observáveis:
A preservação estrutural pós-morte, incluindo a integridade do ADN, não deverá produzir, por si só, indicadores comportamentais, fisiológicos ou neurodinâmicos que demonstrem a continuidade da actividade do organismo original.
Qualquer reactivação funcional exigiria mais do que preservação de componentes.
Exigiria a reconstrução de uma organização dinâmica capaz de integrar esses componentes num processo auto-mantenedor.
Esta previsão distingue:
- preservação de informação material;
- reconstrução de função;
- continuidade do organismo;
- continuidade da consciência.
Não são níveis equivalentes.
7.3. Hipótese geral
A hipótese geral do artigo pode ser expressa assim:
Quanto maior for a dependência de uma actualização relativamente a condições externas repetíveis, maior será a possibilidade de renovar essa actualização depois de uma degradação do suporte, desde que as propriedades materiais e contextuais relevantes permaneçam recuperáveis. Quanto maior for a dependência de uma organização dinâmica auto-mantenedora e temporalmente contínua, menor será a capacidade de recuperar a actualização apenas mediante reconstrução estrutural.
Esta é uma hipótese condicional e comparativa, não uma lei universal.
8. Resposta ao comentário
A observação de que “no nosso género finito” falta um demiurgo identifica uma assimetria real, mas não uma simples deficiência tecnológica.
A arte pode voltar a produzir experiência estética porque a sua actualização não depende da continuidade de um processo interno equivalente à vida biológica.
Ela depende de uma relação renovável entre organização material, contexto e observador.
Quando o restauro recupera condições suficientes para essa relação, uma nova actualização pode ocorrer.
Contudo, essa nova actualização não é a continuação da experiência original.
Não ressuscita o acto de criação, o estado mental do artista ou o primeiro encontro histórico com a obra.
O restauro reabre uma possibilidade de relação; não repõe integralmente o passado.
O organismo é diferente porque a sua vida consiste na continuidade de uma organização dinâmica que se produz, mantém e regula a si própria em acoplamento com o ambiente.
Preservar o EP de um VEC biológico pode conservar informação sobre o organismo, mas não conserva necessariamente o BID que fazia dessa estrutura um sistema vivo.
O “demiurgo” que restaura uma obra não é, portanto, um criador capaz de trazer o passado de volta.
É um agente capaz de restabelecer condições para que uma relação presente volte a acontecer.
O limite fundamental do restauro aparece quando aquilo que se pretende recuperar não é apenas uma relação renovável, mas a continuidade de um processo que deixou de existir.
A diferença entre restaurar uma obra e reactivar um organismo é a diferença entre renovar uma actualização e reconstituir a organização dinâmica que a produzia. A primeira pode ser possível a partir de um suporte preservado; a segunda exige mais do que matéria: exige continuidade processual.
Nota do autor
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor, e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

