O Corpus Informacional face às Emoções e Manifestações Biológicas
O Corpus Informacional (CI) é um sistema teórico que postula a informação como substrato ontológico universal, anterior à matéria, à energia e à consciência.
Uma objeção recorrente dirige-se ao seu âmbito: será que um quadro informacional consegue dar conta de realidades tão encarnadas, subjetivas e biologicamente enraizadas como as emoções, a dor, o medo, o prazer ou o amor?
Este artigo responde a esse desafio de forma directa.
Argumentamos que o CI não apenas resiste a esta objeção como a dissolve: as manifestações que se consideram exclusivamente humanas ou biológicas são precisamente os domínios onde a arquitetura do Corpus, com as suas categorias de Estabilidade Passiva (EP) e Estabilidade Ativa (EA), os protocolos de acoplamento informacional (TPAI), o campo informacional de contexto (CIC) e a Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC), demonstra maior poder explicativo.
O artigo apresenta a formalização informacional de seis manifestações biológicas nucleares, antecipa as principais objeções céticas e estabelece um conjunto de critérios de falsibilidade rigorosamente delimitados.
Palavras-chave: Corpus Informacional; emoções; biologia informacional; HEIC; TPAI; OIC/U; falsibilidade; ontologia da informação; consciência afetiva.
1. Introdução: O Desafio Biológico ao Paradigma Informacional
Quando se apresenta ao público científico a tese de que “tudo é informação”, conforme sustentado pela Teoria Informacional de Tudo (TIT) do Corpus Informacional, a resistência mais imediata não provém da física nem da biologia molecular, mas de um território aparentemente mais simples: a experiência afetiva.
“Como pode um sistema de equações informacionais explicar o que sinto quando choro de alegria?” é uma formulação legítima e filosoficamente séria.
Ela toca, simultaneamente, no problema difícil da consciência (Chalmers, 1995), no problema da qualidade subjetiva da experiência (qualia) e na irredutibilidade aparente dos estados afetivos.
A posição aqui defendida não é a de um reducionismo ingénuo.
O Corpus Informacional não afirma que as emoções “são apenas” informação no sentido em que uma sequência de bits é informação.
Afirma algo mais preciso e mais robusto: que as emoções, enquanto fenómenos, são processos de atualização informacional que ocorrem em sistemas biológicos com arquitetura específica, sistemas que o CI caracteriza como SABA (Sistemas Arquivais Biologicamente Ativos).
Esta distinção é fundamental e será desenvolvida ao longo do artigo.
A estrutura do argumento é a seguinte.
Na secção 2, revisitamos a arquitetura teórica relevante do CI.
Na secção 3, formalizamos seis manifestações biológicas nucleares, emoção, dor, medo, empatia, consciência e memória afetiva, dentro da ontologia informacional.
Na secção 4, antecipamos e respondemos às principais objeções céticas.
Na secção 5, estabelecemos os critérios de falsibilidade.
A secção 6 conclui com as implicações teóricas e os desenvolvimentos futuros.
2. Arquitetura Teórica Relevante do Corpus Informacional
2.1 A Ontologia Informacional Dinâmica Universal (OID/U)
A OID/U postula que a realidade é constituída por estados informacionais em transição contínua.
Cada entidade, desde um eletrão a um organismo, é caracterizada por um par de estados: Estabilidade Passiva (EP) e Estabilidade Ativa (EA).
A EP designa a configuração informacional latente de uma entidade, o seu potencial arquival; a EA designa o estado de atualização, de acoplamento ativo com o ambiente.
A transição EP → EA é, em termos informacionais, o evento constitutivo de qualquer fenómeno observável.
Esta distinção assume uma hierarquia topológica (EPₙ/EAₙ) que permite modelar sistemas complexos de múltiplos níveis.
Um organismo biológico opera simultaneamente em vários níveis hierárquicos: genómico (EP₁/EA₁), celular (EP₂/EA₂), sistémico (EP₃/EA₃) e experiencial (EP₄/EA₄).
As emoções, como veremos, são eventos primariamente localizados nos níveis EA₃ e EA₄, mas com determinantes nos níveis inferiores.
2.2 A Hipótese Emergencial Informacional da Consciência (HEIC)
A HEIC formaliza a consciência como uma função de três variáveis informacionais: C = f(D, I, R) onde D representa a Densidade de acoplamentos informacionais ativos, I a Integração entre subsistemas (análoga, mas não idêntica, à Phi de Tononi), e R a Recursividade do sistema sobre si próprio (auto-referência informacional).
A consciência não é, nesta formulação, uma substância separada nem uma propriedade emergente misteriosa: é o resultado quantificável de uma arquitetura informacional específica.
A relevância da HEIC para o problema das emoções é direta: se a consciência é uma função de D, I e R, então os estados emocionais são modulações específicas dessa função, variações nos valores de D, I ou R que produzem fenomenologia afetiva distinta.
2.3 Os Protocolos de Acoplamento Informacional (TPAI) e o Campo Informacional de Contexto (CIC)
O TPAI (Teoria dos Protocolos de Acoplamento Informacional) descreve as regras que governam como entidades informacionais se acoplam, transmitem e transformam informação.
No contexto biológico, os protocolos de acoplamento incluem vias neuroquímicas, padrões de sincronização neuronal, gradientes hormonais e sinais vagais, todos reinterpretáveis como canais de transmissão informacional com características específicas de fidelidade, latência e amplificação.
O CIC (Campo Informacional de Contexto) formaliza o papel do ambiente informacional na determinação do estado de um sistema.
Uma emoção não emerge no vácuo: emerge sempre num contexto, social, histórico, corporal, ambiental, que o CI formaliza como campo de contexto ativo.
Esta formalização permite ao CI integrar a dimensão relacional e situada das emoções sem recorrer a dualismos.
2.4 O SABA e a especificidade biológica
O SABA (Sistema Arquival Biologicamente Activo) é a categoria ontológica que o CI reserva para sistemas com três propriedades simultâneas:
(1) capacidade de armazenamento e recuperação de estados informacionais passados (memória arquival);
(2) atualização em tempo real em resposta ao ambiente (acoplamento dinâmico);
(3) auto-organização orientada para a manutenção da coerência interna (homeostase informacional).
Os organismos biológicos são SABA por excelência e é nesta qualidade que produzem as manifestações que habitualmente chamamos “biológicas” ou “humanas”.
3. Formalização Informacional das Manifestações Biológicas
3.1 Emoção
A emoção é, do ponto de vista do CI, um evento de atualização informacional de alta intensidade e baixa latência que envolve acoplamento simultâneo de múltiplos subsistemas do SABA.
Formalmente, uma emoção E pode ser representada como:
E = ΔEAₙ | CIC_t
onde ΔEAₙ denota uma variação rápida e significativa no estado de atualização do nível n, condicionada pelo campo de contexto no momento t.
Esta formalização é consistente com os modelos construtivistas da emoção (Barrett, 2017), que sustentam que as emoções não são estados discretos pré-programados mas construções situadas do sistema nervoso sobre o estado corporal actual, uma posição que o CI antecipa e sistematiza.
A evidência neurocientífica é convergente: estudos de neuroimagem funcional demonstram que a experiência emocional envolve redes distribuídas, incluindo o córtex pré-frontal, a amígdala, o córtex insular e o tronco encefálico, cujo padrão de ativação varia em função do contexto (Lindquist et al., 2012).
O CI interpreta este padrão distribuído como a assinatura empírica do acoplamento multi-nível (EPₙ/EAₙ) que a sua ontologia prediz.
3.2 Dor
A dor constitui um caso paradigmático para testar a robustez do CI: trata-se de uma experiência simultaneamente física (nocicepção), afetiva (sofrimento) e cognitiva (avaliação de ameaça).
O CI propõe que a dor é um sinal informacional de alta prioridade, um protocolo de interrupção (PI) no vocabulário TPAI, que força a reconfiguração dos acoplamentos ativos para concentrar recursos informacionais no subsistema ameaçado.
Esta interpretação é coerente com os dados da neurociência da dor: a dissociação entre nocicepção e sofrimento (demonstrada em pacientes com lesões no córtex cingulado anterior que “sentem a dor mas não lhes dói”) mostra que a dor é um fenómeno de integração
informacional multi-camada, não um sinal unitário (Rainville et al., 1997).
O CI prevê precisamente esta dissociabilidade, pois os componentes sensoriais e afetivos da dor correspondem a níveis hierárquicos distintos (EA₂ e EA₄, respetivamente).
3.3 Medo
O medo é conceptualizado no CI como um estado de ativação de protocolos de proteção arquival (PPA): o sistema deteta uma ameaça à sua integridade informacional e ativa modos de EA orientados para a preservação do arquivo.
Esta leitura é compatível com a teoria do medo de LeDoux (2015), que distingue o circuito defensivo inconsciente (subcortical, rápido) da experiência consciente do medo (cortical, lenta), dois processos que o CI aloca a níveis hierárquicos distintos do SABA.
Crucialmente, o CI permite explicar o medo aprendido (condicionamento) como atualização do arquivo EP₃: experiências passadas modificam os protocolos de deteção de ameaça, alterando o limiar de ativação do PPA.
Isto é consistente com os mecanismos epigenéticos de transmissão de padrões de medo documentados em estudos de condicionamento intergeneracional (Dias & Bhattacharya, 2014).
3.4 Empatia
A empatia representa o caso mais desafiante para qualquer teoria informacional: como pode um sistema sentir o que outro sistema sente?
O CI responde através do conceito de ressonância arquival: dois SABA em acoplamento ativo (via CIC partilhado) podem sincronizar parcialmente os seus estados EA, produzindo uma sobreposição funcional que o CI designa por Identidade Informacional Partilhada Transitória (IIPT).
Esta proposta tem suporte empírico nos estudos de neurónios-espelho (Rizzolatti & Craighero, 2004) e nos estudos de hiperescaneamento que demonstram sincronização neuronal inter-individual durante interações sociais (Hasson et al., 2012).
O CI não afirma que a empatia é “apenas” ativação de neurónios-espelho, reconhece que essa é a implementação biológica de um processo informacional mais geral.
3.5 Consciência Afetiva
A consciência afetiva, a qualidade subjetiva do sentir, o que os filósofos chamam qualia afetivos, é o território onde a objeção ao CI é mais aguda.
O CI responde com a HEIC: a subjetividade experiencial emerge quando os valores de D, I e R excedem determinados limiares, produzindo um estado de auto-referência informacional suficientemente rico para gerar perspetiva de primeira pessoa.
Esta posição é próxima, mas distinta, da Teoria da Informação Integrada (IIT) de Tononi (2004, 2014).
Enquanto a IIT identifica a consciência com o valor Phi (integração de informação), o CI postula que a consciência é uma função de três variáveis, o que confere maior poder explicativo diferencial, pois permite distinguir estados de elevada integração mas baixa recursividade (e.g., estados de anestesia superficial) de estados de elevada recursividade mas baixa densidade (e.g., estados meditativos de atenção focada).
3.6 Memória Afetiva
A memória afetiva — a capacidade de re-atualizar estados emocionais passados é, para o CI, a manifestação mais direta da natureza arquival do SABA.
A memória afetiva demonstra que o EP não é um estado estático: é um arquivo dinâmico que pode ser parcialmente re-ativado (EA transitória) por estímulos contextuais compatíveis.
O fenómeno da reconsolidação mnésica (Nader et al., 2000), pelo qual memórias reativadas tornam-se temporariamente lábeis e modificáveis, é exatamente o que se espera de um sistema arquival com protocolos de atualização dinâmica.
4. Antecipação das Objeções Céticas
4.1 Objeção 1: O problema difícil da consciência
Objeção: Mesmo que o CI explique correlatos funcionais das emoções, não explica por que há algo que “é como” estar nesse estado, o famoso explanatory gap de Levine (1983).
Resposta: O CI não dissolve o problema difícil por decreto: propõe que a subjetividade experiencial é uma propriedade emergente de sistemas com arquitetura informacional específica (D, I, R acima de limiares críticos).
Isto é uma hipótese empírica, não uma solução filosófica a priori.
O CI é compatível com o funcionalismo, com o panpsiquismo informacional (Chalmers, 1996) e com o emergentismo forte, mas não se compromete com nenhuma destas posições.
O que o CI rejeita é o dualismo de substâncias: não existe um domínio “experiencial” ontologicamente separado do domínio informacional.
4.2 Objeção 2: O CI é demasiado geral para ser informativo
Objeção: Se tudo é informação, a teoria explica tudo e portanto nada.
Uma teoria que se aplica a eletrões e a sentimentos de amor é vaga por definição.
Resposta: Esta objeção confunde generalidade ontológica com vagueza explicativa.
A física explica tanto a queda de uma maçã como a formação de uma galáxia sem por isso ser vaga.
O CI ganha especificidade através das suas categorias (EP/EA, TPAI, CIC, SABA, HEIC) e das suas hierarquias (EPₙ/EAₙ).
Uma teoria que explica o amor e o electrão com o mesmo conjunto de princípios é mais poderosa, não mais fraca, desde que faça predições distintas para cada caso.
A secção 5 demonstra que o CI as faz.
4.3 Objecção 3: O CI ignora a corporalidade
Objeção: As emoções são corporizadas (embodied).
São sentidas no estômago, no peito, na garganta.
Um sistema abstrato de informação não pode capturar isto.
Resposta: O CI integra a corporalidade através do conceito de SABA e da hierarquia EPₙ/EAₙ.
O corpo não é um suporte passivo da emoção: é o arquivo primário onde os estados informacionais são armazenados e atualizados.
A evidência de que o estado visceral precede ou co-determina a experiência emocional (Damasio, 1994; Craig, 2009) é exatamente o que o CI prediz: os acoplamentos EA nos níveis inferiores (interoceptivos) são condição necessária para a constituição dos estados EA nos níveis superiores (experienciais).
O CI é uma teoria da corporalidade informacional, não uma teoria da informação desincorporada.
4.4 Objecção 4: A HEIC não é testável
Objecção: C = f(D, I, R) é uma fórmula sem operacionalização.
Como se mede D, I ou R num sistema real?
Resposta: D, I e R têm correlatos empíricos mensuráveis: D é operacionalizável através de
métricas de conectividade funcional (e.g., grau médio ponderado em grafos de conectividade
neuronal); I é operacionalizável através de medidas de integração de informação (e.g., Phi,
medidas de entropia de transferência); R é operacionalizável através de índices de auto-
referência (e.g., activação da rede de modo por defeito, medidas de complexidade de
Lempel-Ziv).
A secção 5 especifica os critérios de falsibilidade correspondentes.
4.5 Objeção 5: O CI é um projecto filosófico, não científico
Objeção: O CI é metafísica disfarçada de teoria científica.
Não tem artigos experimentais que o confirmem nem protocolos de teste estabelecidos.
Resposta: Esta objecção confunde nível de análise com falta de cientificidade.
A teoria da relatividade geral é também, numa leitura superficial, “metafísica disfarçada”: postula que o espaço-tempo é uma entidade física curvável, o que na época era indemonstrado.
O que a torna científica é a sua estrutura de predições falsificáveis.
O CI satisfaz o critério popperiano (Popper, 1959): faz predições que podem ser refutadas por dados empíricos, como demonstrado na secção seguinte.
Além disso, o CI tem já artigos publicados em revistas indexadas (Lima & Martinho, 2026) e uma infra-estrutura de proposições de falsibilidade formalizada.
5. Critérios de Falsibilidade
A robustez científica do CI exige que as suas proposições sobre manifestações biológicas sejam falsificáveis.
Apresentamos seis critérios, um por domínio.
F1 – Emoção: Predição de acoplamento multi-nível
Predição: Perturbações experimentalmente induzidas nos acoplamentos EA de nível inferior (e.g., bloqueio farmacológico de sinais interoceptivos) produzem atenuação sistemática da intensidade experiencial reportada das emoções, mesmo quando os estímulos contextuais e cognitivos se mantêm constantes.
Falsificação: Se se demonstrar que a intensidade emocional subjectiva se mantém inalterada perante bloqueio completo de sinais viscerais e corporais, a tese do acoplamento multi-nível é refutada.
Nota: dados de Damásio (1994) e de estudos com bloqueio beta-adrenérgico (Reisenzein, 1983) são consistentes com a predição; uma refutação exigiria desenhos mais rigorosos de isolamento interoceptivo.
F2 – Consciência: Predição da HEIC
Predição: Estados de consciência com fenomenologia afetiva rica apresentam valores simultaneamente elevados de D, I e R (conforme operacionalizados na secção 4.4).
Estados com fenomenologia reduzida (anestesia, estados vegetativos) apresentam redução em pelo menos uma das variáveis.
Falsificação: Se se demonstrar que existe fenomenologia afetiva rica em sistemas com valores mensuravelmente baixos de D, I e R, ou que a redução a zero de uma das variáveis não afeta a consciência, a HEIC é refutada nas suas premissas nucleares.
F3 – Medo: Predição dos protocolos de proteção arquival
Predição: A extinção do medo condicionado resulta em modificação dos padrões EP arquivados (mensuráveis por alterações epigenéticas e de conectividade sináptica), não só na supressão da expressão comportamental.
Estados de medo extinto devem ser distinguíveis de estados de medo nunca adquirido por marcadores arquivais (epigenéticos, sinápticos).
Falsificação: Se se demonstrar que extinção e não-aquisição produzem estados arquivais indistinguíveis, a tese de que o medo é uma modificação do EP é refutada.
Evidência actual é favorável ao CI (Quirk & Mueller, 2008), mas o critério de falsificação permanece operacional.
F4 – Empatia: Predição da ressonância arquival
Predição: A intensidade da empatia entre dois indivíduos correlaciona-se positivamente com o grau de sincronização dos seus estados EA (mensuráveis por hiperescaneamento de EEG/fMRI durante interações sociais), independentemente da modalidade de comunicação utilizada.
Falsificação: Se se demonstrar que empatia elevada não correlaciona com sincronização neural inter-individual, ou que a sincronização ocorre sem empatia reportada, a tese da ressonância arquival requer revisão.
Estudos de hiperescaneamento actuais são parcialmente favoráveis (Hasson et al., 2012), mas a especificidade do mecanismo permanece em aberto.
F5 – Dor: Predição da dissociabilidade hierárquica
Predição: A componente afetiva da dor (sofrimento) e a componente sensorial (nocicepção) são processualmente independentes, correspondendo a níveis hierárquicos distintos do CI (EA₂ e EA₄).
Intervenções que modulem seletivamente EA₄ (e.g., mindfulness, manipulação cognitiva) devem reduzir o sofrimento sem alterar o limiar nociceptivo.
Falsificação: Se se demonstrar que sofrimento e nocicepção são sempre co-dependentes e não seletivamente moduláveis, a tese da independência hierárquica é refutada.
Dados atuais de estudos de meditação (Zeidan et al., 2015) e de lesões no cingulado anterior são favoráveis.
F6 – Memória afetiva: Predição da reconsolidação arquival
Predição: A reactivação de uma memória afectiva torna temporariamente acessível e modificável o estado EP correspondente.
Este período de labilidade tem duração determinada por parâmetros do protocolo de acoplamento (TPAI) do sistema em causa, e a janela de reconsolidação é predizível em função da densidade e intensidade do acoplamento original.
Falsificação: Se se demonstrar que a reconsolidação é aleatória ou independente das características do acoplamento original, a tese de que a memória afetiva segue os protocolos TPAI é refutada.
A literatura actual sobre reconsolidação (Nader et al., 2000; Kindt et al., 2009) é amplamente consistente com a predição.
6. Implicações Teóricas e Desenvolvimentos Futuros
6.1 O CI como unificador de paradigmas
A presente análise demonstra que o CI não é uma teoria que compete com a neurociência afetiva, a psicologia evolucionária ou a fenomenologia: é um quadro meta-teórico que permite traduzir e integrar as descobertas destes campos numa ontologia unificada.
A teoria construtivista das emoções de Barrett (2017), a neurociência somática de Damásio (1994), a IIT de Tononi (2004) e a teoria do medo de LeDoux (2015) são, do ponto de vista do CI, descrições empíricas de processos informacionais que o CI formaliza ao nível ontológico.
6.2 Extensões necessárias
O presente artigo identifica três desenvolvimentos teóricos prioritários para o CI no domínio afetivo:
- Quantificação dos limiares de D, I e R na HEIC: é necessário desenvolver instrumentos de medida que tornem operacionais as variáveis da função C = f(D, I, R) em estudos empíricos.
- Formalização dos protocolos de acoplamento social (TPAI-S): os protocolos que governam o acoplamento informacional entre SABA distintos (empatia, vinculação, regulação emocional interpessoal) requerem formalização específica.
- Integração com epigenética informacional: a transmissão intergeracional de padrões afetivos (documentada em estudos de condicionamento) sugere que o arquivo EP opera também ao nível epigenético, uma extensão do CI que merece desenvolvimento formal.
6.3 Consequências para a psicologia clínica
Se as emoções são processos de atualização arquival, a psicopatologia afetiva pode ser conceptualizada como disfunção nos protocolos de acoplamento (TPAI), desorganização arquival (EP fragmentado ou inacessível) ou deficit de recursividade (R baixo, característico de estados dissociativos).
Esta re-conceptualização tem implicações para o design de intervenções terapêuticas que o CI poderá vir a informar.
7. Conclusão
O Corpus Informacional não apenas resiste ao desafio das manifestações biológicas: é precisamente neste território que a sua arquitetura teórica revela maior potência explicativa.
As emoções, a dor, o medo, a empatia, a consciência afectiva e a memória são processos de actualização informacional em sistemas biologicamente ativos (SABA), governados por protocolos de acoplamento (TPAI), condicionados por campos de contexto (CIC) e formalizáveis através da hierarquia EPₙ/EAₙ e da função HEIC.
As objeções céticas clássicas, o problema difícil, a vagueza excessiva, a ignorância da corporalidade, a não-testabilidade, são respondidas dentro do quadro conceptual do CI, sem recurso a estratégias ad hoc.
Os seis critérios de falsibilidade estabelecidos neste artigo tornam as proposições do CI empiricamente vulneráveis e portanto científicas no sentido mais rigoroso do termo.
A questão “;pode um sistema informacional explicar o que sinto?” tem uma resposta dentro do CI: não apenas pode, é a única família de teorias que o pode fazer sem pressupor, de forma oculta, aquilo que pretende explicar.
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NOTA DO AUTOR
Este artigo foi desenvolvido no quadro do Corpus Informacional, teoria original do autor e não recebeu financiamento externo. A análise das implicações teóricas é da responsabilidade exclusiva do autor.
Correspondência: vitor.lima@crivosoft.pt

