Em nome da “humanização”: como a indústria que apaga os vestígios da IA recompensa a hipocrisia
Está a crescer discretamente uma nova indústria: não produz ideias, limita-se a apagar os vestígios maquinais das ideias. As chamadas ferramentas de “humanização” de texto gerado por IA prometem transformar uma escrita automática num texto que “pareça humano”, ajustando o ritmo das frases, introduzindo irregularidades, eliminando a uniformidade estilística que costuma associar-se aos modelos generativos. Investigação recente descreve estas ferramentas como sistemas concebidos para disfarçar texto de IA como escrita humana, com consequências diretas para a integridade da informação e para a confiança nas práticas académicas. O debate público tende, porém, a concentrar-se numa pergunta técnica: “é possível detetar o texto gerado por IA?”. Essa pergunta é importante, mas tornou-se uma armadilha. Ao transformar o problema numa corrida entre geradores e detetores, desvia a atenção da questão institucional mais decisiva: o que é que os nossos sistemas de avaliação estão, na prática, a premiar? A armadilha da deteção Quando uma escola, uma revista científica ou um empregador valoriza sobretudo um texto que “pareça escrito por uma pessoa”, sem conseguir, ou sem querer, verificar se quem o assina possui efetivamente o pensamento nele expresso, a indústria da humanização deixa de ser uma anomalia moral. Torna-se uma resposta de mercado a uma falha de desenho institucional. O problema não é apenas que existam ferramentas para ocultar a proveniência de um texto. É que o nosso critério dominante de mérito académico, fluência, estrutura, acabamento, conformidade formal, pode ser simulado com enorme facilidade. Estudos sobre ferramentas de deteção e humanização mostram que ambas as categorias exploram as mesmas dimensões superficiais…

