Wheeler e Rovelli: O Corpus Informacional e a Ontologia da Perturbação Fotónica
O Corpus Informacional de Vítor Lima opera em território adjacente às duas teorias mais influentes da física da informação: o paradigma «It from Bit» de John Archibald Wheeler e a Mecânica Quântica Relacional (MQR) de Carlo Rovelli.
O presente artigo procede a uma análise comparativa rigorosa das três posições, identificando os pontos de convergência e, crucialmente, as divergências ontológicas que conferem ao Corpus Informacional um estatuto teórico autónomo e original.
Argumenta-se que, onde Wheeler reduz o real ao resultado de perguntas binárias e Rovelli o dissolve em pura relacionalidade sem substrato, o Corpus Informacional propõe uma terceira via: a realidade como processo de computação ativa e cumulativa, no qual cada interação não só atualiza estados locais mas imprime entropia informacional irreversível na cadeia de transmissão.
Esta posição tem consequências diretas para a epistemologia da observação astronómica, campo em que nem Wheeler nem Rovelli produziram uma teoria explícita e constitui a contribuição original mais clara do Corpus.
Palavras-chave: It from Bit; Wheeler; Mecânica Quântica Relacional; Rovelli; Corpus Informacional; TIT; TRD; OIC/U; Shake Hand Informacional; perturbação fotónica; entropia informacional; epistemologia astronómica.
Introdução: O Problema da Originalidade em Física da Informação
Quando uma teoria nova emerge em território já habitado por gigantes, a questão da originalidade não é académica, é ontológica.
Ou a nova teoria diz algo genuinamente diferente, com consequências empíricas ou conceptuais distintas, ou é uma reinterpretação metafórica do que já existe.
Esta questão foi colocada ao Corpus Informacional de Vítor Lima: em que difere, concretamente, do «It from Bit» de John Archibald Wheeler e da Mecânica Quântica Relacional de Carlo Rovelli?
A pergunta é legítima e merece uma resposta directa.
Wheeler e Rovelli são os dois pensadores que mais radicalmente colocaram a informação no centro da ontologia física, e qualquer teoria que aspire a fazer o mesmo tem o dever de se posicionar explicitamente em relação a eles, não como acto de deferência académica, mas como exigência de rigor intelectual.
O presente artigo procede a essa diferenciação em três movimentos: primeiro, expõe com fidelidade as posições de Wheeler e Rovelli; segundo, identifica os seus limites e lacunas; terceiro, demonstra como o Corpus Informacional preenche essas lacunas de forma não redundante, constituindo, portanto, uma contribuição original e não uma mera síntese.
John Archibald Wheeler e o Paradigma «It from Bit»
A Tese Central
Wheeler sintetizou a sua ontologia em três palavras que se tornaram um programa de investigação: «It from Bit».
A tese é radical na sua simplicidade: toda a entidade física, «every it, every particle, every field of force, even the spacetime continuum itself», deriva a sua existência, pelo menos em parte, de respostas a perguntas binárias.
Every it every particle, every field of force, even the space-time continuum
itself, derives its existence and its physical behavior from binary choices,
bits. What we call reality arises in the last analysis from the posing of yes-no
questions. – John A. Wheeler, «Information, Physics, Quantum: The
Search for Links» (1989)
Para Wheeler, o acto de observação, a formulação de uma pergunta ao universo e a obtenção de uma resposta binária, é o mecanismo pelo qual o real se constitui.
O universo não existe independentemente das observações que o interrogam: é co-criado pelo acto de medir.
Esta posição, designada por «participatory universe», inspira-se diretamente nas experiências de escolha atrasada (delayed-choice experiments) e na interpretação de Copenhaga da mecânica quântica.
Contribuição e Alcance
A contribuição de Wheeler é dupla.
Por um lado, elevou a informação ao estatuto de categoria ontológica fundamental, não como epifenómeno da matéria, mas como o seu substrato.
Por outro, introduziu o observador como elemento constitutivo da realidade física, antecipando debates que continuam atuais na física quântica e na filosofia da ciência.
O programa «It from Bit» influenciou diretamente a computação quântica, a teoria da informação quântica, e a própria cosmologia: a ideia de que o universo «computa» sobre si mesmo encontra em Wheeler a sua primeira formulação ontológica explícita.
Limitações e Lacunas
Não obstante a sua profundidade, o paradigma de Wheeler apresenta lacunas significativas que o próprio reconhecia parcialmente:
- Assimetria observador-observado: Em Wheeler, a pergunta binária do observador colapsa o real. O processo é fundamentalmente unidireccional: o observador actua sobre o sistema, e o sistema responde com um bit. A bilateralidade da interação, o facto de o sistema também alterar o estado do observador, não é formalizada como mecanismo central.
- Silêncio sobre o percurso: Wheeler tematiza o momento de colapso (a resposta à pergunta binária) mas não a história da informação entre emissão e deteção. O que acontece ao fotão durante os seus 10 anos-luz de percurso antes de ser detetado? Para Wheeler, esta questão não é ontologicamente relevante, apenas o momento da deteção o é. Esta posição é discutível.
- Indeterminação ontológica do passado: Nas experiências de escolha atrasada de Wheeler, o passado do fotão é retroactivamente determinado pelo acto de observação presente. Esta posição, embora coerente com a mecânica quântica, cria tensões com a realidade empírica da astronomia: tratamos as observações astronómicas como registos de eventos passados reais, não como co-criações do presente observacional.
- Ausência de teoria da perturbação: Wheeler não desenvolve uma teoria de como a informação é degradada, perturbada ou recodificada durante o percurso fotónico. O meio interestelar, a expansão cósmica, as lentes gravitacionais, estes fenómenos não são integrados numa ontologia da transmissão.
Carlo Rovelli e a Mecânica Quântica Relacional
A Tese Central
Rovelli propôs a Mecânica Quântica Relacional (MQR) como solução ao problema da medição quântica: eliminar o problema dissolvendo-o.
A sua tese é que os estados quânticos e, por extensão, todos os estados físicos, não têm existência absoluta.
Existem apenas relativamente a outros sistemas.
The central observation motivating relational quantum mechanics is that
quantum mechanical descriptions are always descriptions of systems
relative to other systems. There is no description of the world ´from the
outside´. – Carlo Rovelli, «Relational Quantum Mechanics» (1996)
Para Rovelli, não existe «estado do universo» independente de um observador.
Cada sistema S tem um estado apenas relativamente ao sistema O com o qual interagiu.
O mesmo sistema S pode ter estados diferentes relativamente a observadores distintos e estas diferenças não são contradições, porque os estados são intrinsecamente relacionais, não absolutos.
Contribuição e Alcance
A MQR resolve elegantemente o paradoxo do amigo de Wigner e elimina a necessidade de um observador privilegiado ou de um colapso misterioso.
A realidade emerge das relações, não dos substratos.
Esta posição tem profundas ressonâncias com a Relatividade Geral (onde não existe sistema de referência privilegiado) e com a ontologia processal de Whitehead.
Mais recentemente, Rovelli tem aprofundado a ligação entre relações informacionais e o tecido do espaço-tempo, sugerindo que a própria geometria emerge de redes de interações informacionais, uma convergência com o programa de física de loops quânticos que o próprio co-desenvolveu.
Limitações e Lacunas
A MQR é uma das posições mais sofisticadas da filosofia da física contemporânea.
As suas limitações são, por isso, mais subtis:
- Dissolução excessiva do substrato: Ao eliminar qualquer estado absoluto, a MQR arrisca tornar-se incapaz de explicar a estabilidade e continuidade da experiência. Se o estado de S existe apenas relativamente a O, e o de O apenas relativamente a S´, como emerge a aparente solidez e coerência do mundo macroscópico? Rovelli oferece respostas parciais, mas a questão permanece em aberto.
- Relacionalidade sem dinâmica de perturbação: A MQR focaliza-se no momento de interação entre dois sistemas, o estabelecimento de uma relação. Mas não desenvolve uma teoria de como essa relação é mediada pelo percurso da informação entre os sistemas. A luz que viaja de uma galáxia até ao telescópio não é um sistema único: é uma cadeia de interações mediadas por um meio ativo. A MQR não tem, na sua formulação standard, uma ontologia do meio como processador.
- Silêncio sobre a entropia informacional do percurso: Tal como Wheeler, Rovelli não formaliza a degradação irreversível da informação durante o percurso fotónico como uma categoria ontológica autónoma. A entropia é tratada como propriedade termodinâmica, não como característica estrutural da transmissão informacional.
- Implicações não desenvolvidas para a astronomia: A MQR implica que o estado de uma galáxia distante existe apenas relativamente ao telescópio que a observa. Esta é uma posição ontológica poderosa, mas Rovelli não a desenvolve em termos de teoria da observação astronómica: não tematiza o que significa, concretamente, que a imagem de uma galáxia a 10 mil milhões de anos-luz seja um estado relacional mediado por 10 mil milhões de anos de perturbações.
O Corpus Informacional: Uma Terceira Via
O Ponto de Partida Comum
O Corpus Informacional partilha com Wheeler e Rovelli três premissas fundamentais:
(a) a informação é uma categoria ontológica, não apenas epistemológica;
(b) não existe «estado absoluto» independente de relações;
(c) o acto de observação é constitutivo, não meramente revelador. Neste sentido, o Corpus Informacional é claramente herdeiro de ambas as tradições e deve reconhecê-lo explicitamente.
No entanto, o Corpus Informacional parte destas premissas para uma posição que diverge em aspetos estruturais, divergências que não são meramente de ênfase ou de linguagem, mas que têm consequências teóricas distintas.
Primeira Divergência: A Bilateralidade do SHI vs. a Unilateralidade do Bit
Para Wheeler, a interação observador-sistema é assimétrica: o observador formula a pergunta, o sistema devolve o bit.
O sistema é passivo na formulação da pergunta.
Para Rovelli, a interação é simétrica em termos de relatividade dos estados, mas não é tematizada como processo de co-produção activa.
O Corpus Informacional propõe o Shake Hand Informacional (SHI) como mecanismo distinto: toda a interação entre sistemas A e B é um protocolo bilateral no qual ambos os sistemas atualizam os seus estados e o resultado não é a leitura de um estado pré-existente (Wheeler) nem a instanciação de uma relação sem substrato (Rovelli), mas a co-produção de um estado novo que não existia em nenhum dos dois antes da interação.
Estado_AB = SHI(Estado_A, Estado_B) ≠ Estado_A ∧ ≠ Estado_B
Esta distinção tem consequências: o estado do espelho a 10 anos-luz não é neutro.
Ao refletir os fotões da Terra, o espelho imprime a sua própria história de 10 anos na imagem refletida.
A observação final não é nem «a Terra há 20 anos» (Wheeler: a pergunta colapsa o estado passado) nem «o estado da Terra relativamente ao telescópio» (Rovelli: relacionalidade sem substrato de percurso).
É o output de dois SHI em cadeia, cada um dos quais adicionou entropia informacional irreversível.
Segunda Divergência: O Meio como Processador Ativo
Tanto Wheeler como Rovelli tratam implicitamente o espaço entre emissor e receptor como um meio de transporte, passivo em Wheeler, inexistente como substrato em Rovelli.
O Corpus Informacional, através da TRD e da OID/U, propõe que o meio interestelar é um sistema informacional ativo: cada interação fotão-poeira, fotão-campo magnético, fotão-plasma é um SHI que modifica irreversivelmente o pacote de dados fotónico.
Este ponto é empiricamente robusto: a astronomia observacional já quantifica estas perturbações (extinção interestelar, dispersão em plasma, rotação de Faraday).
O que o Corpus Informacional acrescenta é a qualificação ontológica: estas perturbações não são ruído a eliminar, são o processamento ativo do universo sobre a informação em trânsito.
Eliminá-las completamente seria epistemicamente impossível porque parte da informação original foi irreversivelmente entrelaçada com o estado do meio.
Formalizando, seja P(r) o operador de perturbação acumulada ao longo de um percurso de comprimento r:
Ψ_observado = P(r) ∘ Ψ_emitido
P(r) = T_grav(r) ∘ T_ISM(r) ∘ T_cosm(r) ∘ T_quantum(r)
onde T_grav é o operador de lentes gravitacionais, T_ISM é o operador de
perturbação do meio interestelar, T_cosm é o operador de expansão cósmica
(desvio para o vermelho), e T_quantum é o operador de perturbação quântica
estocástica. A composição é não-comutativa em geral: a ordem das perturbações importa.
A decomposição de P(r) em operadores não-comutativos é uma formalização que nem
Wheeler nem Rovelli oferecem.
É uma contribuição específica do Corpus Informacional para a teoria da observação astronómica.
Terceira Divergência: O Tempo Cósmico como Cálculo, não como Relação
Para Rovelli, o tempo é uma ilusão emergente, uma propriedade macroscópica que surge da ignorância termodinâmica, não uma estrutura fundamental da realidade.
Esta posição, defendida em «The Order of Time» (2018), é coerente com a MQR mas conduz a
dificuldades na explicação da direcção temporal e da irreversibilidade.
O Corpus Informacional propõe uma posição distinta: o tempo não é ilusão nem é absoluto, é a medida da profundidade computacional do universo.
O «passado» de um objeto astronómico não é uma construção relacional do observador presente (Rovelli), nem o resultado retroativo da sua escolha de medição (Wheeler): é o conjunto de estados de processamento pelos quais o universo passou desde a emissão até à detcção.
O tempo cósmico é o comprimento da cadeia de SHI entre o evento original e a sua observação.
Esta posição preserva a irreversibilidade do tempo (a cadeia de SHI é irreversível, a entropia informacional acumulada não pode ser recuperada integralmente) sem reduzir o tempo a ilusão termodinâmica.
E tem uma consequência directa: o «passado» que a astronomia observa não é o passado nu do objeto, é o passado processado pela cadeia causal que medeia entre o objeto e o observador.
Síntese Comparativa
| Dimensão | Wheeler («It from Bit») | Rovelli (MQR) | Corpus Informacional (Lima) |
| Substrato ontológico | Informação binária como fundamento do ser físico | Não existe substrato, só relações entre sistemas | Informação relacional dinâmica; o universo processa ativamente os seus próprios estados |
| Natureza do fotão | Pacote energético cujo colapso produz informação | Estado relacional sem realidade absoluta | Pacote de dados ativo, perturbado e recodificado ao longo de cada interação no percurso |
| Perturbação do trajeto | Não formalizada como categoria ontológica central | Não formalizada; foca-se no momento de interação | Categoria ontológica central: cada SHI acrescenta entropia informacional irreversível ao pacote |
| Tempo e passado cósmico | Não tematizado especificamente | Tempo emerge das relações; o passado de um sistema é o que outros registaram dele | O passado observado é o output de um cálculo cósmico; «passado puro» é conceito vazio |
| Implicação para astronomia | Implícita: observação colapsa informação | Implícita: o estado da galáxia existe relativamente ao telescópio | Explícita: toda a imagem astronómica é uma aproximação perturbada, deconvoluível mas nunca exata |
| Papel do observador | A pergunta binária do observador colapsa o real em «bit» | O estado de S existe apenas relativamente a O; não há estado absoluto | O SHI é bilateral: observador e observado co- produzem um estado |
Tabela 1 — Comparação entre Wheeler («It from Bit»), Rovelli (MQR) e o Corpus Informacional nas dimensões ontológicas centrais.
A Contribuição Original do Corpus Informacional
Com base na análise precedente, podemos agora identificar com precisão o que o Corpus Informacional acrescenta à tradição Wheeler-Rovelli:
A Teoria da Perturbação Ontológica do Percurso
Nem Wheeler nem Rovelli desenvolveram uma teoria sistemática de como a informação é transformada durante o percurso entre emissor e receptor.
O Corpus Informacional colmata esta lacuna com a formalização do operador de perturbação P(r) e a sua decomposição em componentes físicas mensuráveis.
Esta contribuição tem implicações diretas para a epistemologia da astronomia observacional e é, tanto quanto é do conhecimento do autor, original na literatura da física da informação.
O SHI como Protocolo de Co-Produção
A distinção entre a unilateralidade do bit de Wheeler, a relacionalidade sem co-produção de Rovelli e a bilateralidade co-produtiva do SHI de Lima é uma distinção ontológica genuína, com consequências para a teoria da medição e para a epistemologia da observação.
O SHI não é a soma de Wheeler e Rovelli: é uma terceira posição que não reduz a interação nem a um colapso unilateral nem a uma instanciação relacional.
A Qualificação da Imagem Astronómica
A proposição central do artigo anterior «toda a imagem astronómica é uma aproximação perturbada ao estado original do objeto observado, não o estado original», é uma posição que Wheeler implica mas não desenvolve e que Rovelli deixa em aberto.
O Corpus Informacional é, tanto quanto se sabe, o primeiro quadro teórico a formalizar explicitamente esta proposição como consequência de uma ontologia da informação, com implicações para a metodologia da astronomia de precisão.
A Irreversibilidade Informacional como Estrutura do Tempo
A proposta de que o tempo cósmico é a medida da profundidade computacional, o comprimento da cadeia de SHI, é uma posição distinta tanto da visão de Wheeler (onde o tempo é constituído pelos actos de observação) como da de Rovelli (onde o tempo é ilusão termodinâmica).
Esta proposta articula irreversibilidade e temporalidade de uma forma que merece investigação empírica adicional, nomeadamente, na relação entre entropia de Von Neumann de sistemas quânticos e a «profundidade computacional» dos seus percursos de transmissão.
Objeções Antecipadas e Respostas
O SHI é apenas o colapso quântico reformulado»
Objeção: o SHI não é mais do que o colapso da função de onda descrito em linguagem diferente.
A «co-produção» é apenas o facto trivial de que, após a medição, tanto o sistema medido como o aparelho de medição se encontram num estado correlacionado.
Resposta: a objeção confunde o mecanismo com a ontologia.
O colapso quântico descreve a transição de uma superposição para um estado definido, é uma descrição matemática.
O SHI é uma proposição ontológica: a interação não «revela» um estado pré-existente (interpretação de Copenhaga) nem «seleciona» um ramo (interpretação de Everett), co-produz um estado novo que não existia em nenhum dos participantes.
Esta distinção é compatível com o formalismo quântico mas não é exigida por ele, é uma escolha interpretativa com consequências ontológicas distintas.
«A perturbação do percurso já é tratada pela óptica e astrofísica»
Objeção: a extinção interestelar, as lentes gravitacionais, o desvio para o vermelho, tudo isto já é tratado quantitativamente pela astrofísica.
O Corpus Informacional não acrescenta nada que a física não saiba já.
Resposta: a astrofísica trata estas perturbações como «erros» a corrigir para aceder ao sinal «verdadeiro».
O Corpus Informacional propõe que esta correção é, em princípio, sempre incompleta, porque parte da informação original foi irreversivelmente entrelaçada com o estado do meio através de SHI estocásticos.
A diferença não é nos mecanismos (que são os mesmos) mas na ontologia: não se trata de «ruído a eliminar» mas de «computação do universo sobre o sinal».
Esta requalificação tem implicações metodológicas: define limites epistémicos estruturais que a astrofísica convencional não formaliza como tais.
«O Corpus Informacional é empiricamente equivalente à física convencional»
Objeção: se o Corpus Informacional é compatível com toda a física existente e não faz previsões diferentes, é filosofia, não física e não pode ser falsificado.
Resposta: esta objeção aplica-se com igual força a Wheeler e a Rovelli.
A MQR de Rovelli e o «It from Bit» de Wheeler são programas interpretativo-ontológicos, não teorias preditivas
independentes.
A originalidade de uma teoria ontológica não se mede apenas pela diferença de previsões empíricas, mas pela diferença de quadro conceptual que oferece para integrar e interpretar os resultados empíricos existentes e pela geração de novas questões que esse quadro torna possível formular.
O Corpus Informacional satisfaz estes critérios: a proposição de que existe um limite epistémico estrutural à deconvolução astronómica é uma afirmação com conteúdo empírico, embora não seja uma previsão pontual.
Conclusões
O presente artigo procedeu a uma diferenciação rigorosa entre o Corpus Informacional de e as duas tradições de física da informação mais relevantes: o «It from Bit» de Wheeler e a Mecânica Quântica Relacional de Rovelli.
As conclusões são as seguintes:
- Convergência: As três posições partilham a premissa de que a informação é categoria ontológica fundamental e que não existe estado absoluto independente de relações. O Corpus Informacional é herdeiro legítimo de ambas as tradições.
- Divergência no mecanismo: O SHI difere do bit de Wheeler (unilateral) e da relação de Rovelli (sem co-produção activa): é um protocolo bilateral de co-produção de estados novos, com consequências para a teoria da medição.
- Divergência na ontologia do percurso: O Corpus Informacional é o único dos três que desenvolve uma teoria explícita da perturbação informacional durante o percurso fotónico, formalizada no operador P(r) e na sua decomposição não-comutativa.
- Contribuição original: A proposição de que toda a imagem astronómica é uma aproximação perturbada ao estado original, com limites epistémicos estruturais à deconvolução, é original na literatura da física da informação e constitui a contribuição mais imediata do Corpus Informacional à epistemologia da astronomia observacional.
- Programa de investigação: A relação entre a entropia de Von Neumann de sistemas quânticos e a profundidade computacional dos seus percursos de transmissão constitui um problema aberto que a convergência do Corpus Informacional com a MQR e com o «It from Bit» torna possível formular pela primeira vez.
Wheeler perguntou: «de onde vem o It?» Rovelli respondeu: «das relações.» O Corpus
Informacional acrescenta: «e de toda a história computacional que mediou essas relações.»
Não é a mesma resposta.
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